sábado, 24 de março de 2012

32 anos do martírio de Dom Oscar Romero

Dom Oscar Romero foi Arcebispo de El Salvador (país centro-americano com cerca de 21.000 Km² e atualmente com aproximadamente 7,1 milhões de habitantes) de fevereiro de 1977 a março de 1980, quando foi assassinado durante uma Eucaristia a que presidia.


Nessa época, a revolução cubana de Fidel Castro e a guerrilha de esquerda nos outros países da América Central empurraram o exército salvadorenho firmemente para a direita. A miséria no campo facilitou o surgimento de vários movimentos guerrilheiros de esquerda. Medidas repressivas e violação dos direitos humanos pelo exército durante os anos 70 e 80 eram comuns. Em 1972, foi eleito presidente Arturo Molina, e, em 1977, o general Carlos Humberto Romero. Em 1979, uma junta militar derrubou o presidente Carlos Humberto Romero. A junta não conseguiu unificar o país nem derrotar as guerrilhas, as quais controlavam parte do país. José Napoleón Duarte se uniu à junta e assumiu a presidência em dezembro de 1980.

Nesse clima de guerra civil, pobreza extrema e grande sofrimento do povo salvadorenho, o Pe. Rutílio Grande Garcia, nomeado pároco de Aquilares em 1971, passa a realizar um trabalho de conscientização do povo para que as pessoas se tornassem, conforme suas próprias palavras, "...conscientes da própria vocação humana, capazes de se tornarem protagonistas do seu próprio destino individual e social, alavancas de transformação." Seu trabalho e suas homilias passaram a incomodar o poder salvadorenho da época, mas a resposta do padre foi: "Aquilo que preocupa estes assim chamados católicos conservadores é o “deus dinheiro”, um deus construído pelas mãos do homem, amassado com o sangue dos irmãos inocentes... Eu amo-os e as acusações gratuitas a nosso respeito não têm fundamento. Estou disposto a dar a vida...”

O Pe. Rutílio repete a mesma denúncia em 13 de Fevereiro de 1977, sublinhando: “A Eucaristia que estamos a celebrar alimenta este nosso ideal de uma mesa comum para todos, com um lugar para cada um e Cristo no meio”. Em 12 de Março, quando se dirigia para a sua terra natal com outros cristãos para preparar uma festa religiosa, foi morto por uma rajada de metralhadora.

Diante da violenta morte do Pe. Rutílio e de parte do grupo de romeiros que o acompanhavam, Dom Oscar Romero abandona sua posição conservadora e insiste vigorosamente no esclarecimento do crime e no julgamento dos culpados, passando a denunciar em suas homilias as numerosas violações de direitos humanos em El Salvador e manifestando publicamente sua solidariedade com as vítimas da violência política.
De pessoa fortemente conservadora, introvertida e pouco aberta às aspirações do seu povo, despertou para a gravidade da situação de injustiça e violência que se vivia e compreendeu que a sua missão de pastor era tornar-se defensor do povo, a voz dos sem voz. Sua pregação começou a dar frutos na Arquidiocese, na união do clero e dos fiéis em torno das suas palavras. A violência e a opressão da elite salvadorenha apoiada pelos Estados Unidos acentuou-se no final dos anos 70 e pela sua postura dura contra a violência e as injustiças de que o povo salvadorenho era vítima acabou por receber inúmeras ameaças de morte, tendo sido assassinado com um tiro no coração por um atirador de elite do exército salvadorenho, no dia seguinte a ter ordenado em nome de Deus o fim da repressão contra o povo, enquanto celebrava a Eucaristia na capela do Hospital La Divina Providencia na cidade de San Salvador, em 24 de Março de 1980.


Reproduzimos aqui as belas palavras do Pe. João Batista Libânio (sacerdote jesuíta, escritor, teólogo e professor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte) sobre Dom Oscar Romero, publicadas originalmente no Jornal de Opinião, da Arquidiocese de Belo Horizonte:

"Marco simbólico do continente latino-americano. Responde bem à pedagogia de Deus. Não escolhe os grandes deste mundo, mas os pequenos para confundir os fortes. Assim, lá vivia em El Salvador um bispo conservador que assumiu o pastoreio sob o olhar complacente e feliz da burguesia.

Homem piedoso e honesto, sim, mas preso nas malhas da tradição, tecida por uma oligarquia impiedosa de longa data. Diante do corpo ensanguentado de Rutílio Grande, sacerdote jesuíta (1977), promotor da libertação dos oprimidos, dom Romero modifica radicalmente sua postura em face do Governo e urge a investigação do crime. Como este fora perpetrado por forças do próprio Governo, tal insistência só produzia ódio contra ele. Daí para frente o arcebispo enceta uma caminhada ao lado do povo sofrido até ser assassinado pelas forças repressivas do Estado em 1980.

Além do testemunho maravilhoso de vida, de coragem e de entrega, dom Romero deixou-nos magnífica coleção de homilias. Ele criou gênero próprio de pregações. Serviam simultaneamente de informação de fatos acontecidos no país, que a rigorosa censura escondia, e de alimento para a fé do povo simples no meio da terrível repressão e pobreza. Transparece nelas, de modo original e corajoso, uma espiritualidade aliada a sério compromisso político. O bispo de formação religiosa tradicional, sem perdê-la no que tem de piedade popular, assumiu uma linguagem de ponta na linha da libertação. Esta não nasceu de nenhuma crítica a partir da racionalidade moderna, mas da provocação que lhe veio da realidade sofrida de seu povo.

Ele se sentia verdadeiro mediador entre a Palavra de Deus lida na celebração e a comunidade eclesial da qual era pastor. Articulava maravilhosamente as interpelações nascidas da Escritura com a vida das pessoas. Esta lhe oferecia o olhar crítico para compor as homilias. Algo admirável por provir precisamente da mais alta autoridade eclesiástica do país, onde uma Igreja durante séculos compactuara com as classes dominantes. Agora se produzia a ruptura no espírito do Evangelho de Jesus. Bispo, ele se entendia no espírito do Concílio Vaticano como servidor do povo de Deus.

Mostrou enorme coerência entre a autenticidade de vida e as palavras até o extremo do martírio. Renunciara habitar luxuosa residência oferecida pela burguesia salvadorenha para ocupar modesto quarto do hospital dos cancerosos de San Salvador. Fazia ecoar, praticamente, a única voz de verdade e profecia naquele momento de censura rigorosa por parte do Governo, mesmo quando ele se dera conta das ameaças de morte. Proclamava-se a "voz dos sem voz" e não temeu cumprir tal missão. E por isso foi assassinado. Sofreu no interior da Igreja discriminação e incompreensão. Tal solidão o acompanhou até a morte em testemunho muito próximo ao de Jesus."

Fonte: https://sites.google.com/site/pastoralfeepolitica/especial/personalidade/oscar-romero

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