quarta-feira, 30 de abril de 2014

Com Jesus em Samaria – aproximação, diálogo e acolhida



“Então chegou uma mulher da Samaria para tirar água.
Jesus lhe pediu: dá-me de beber”
[Jo 4,7]


Estamos pisando nas terras de Samaria. Terra que nos vai provocando nesse ano de 2014 no caminho de revitalização das Pastorais da Juventude. Tempo de reconhecer e conviver com a juventude do nosso continente. A “Samaria” que vamos saboreando e desvelando juntos e nesse movimento nos vai desinstalando e fazendo-nos romper nossas distâncias culturais, religiosas, sociais...
No tempo de Jesus viver na Samaria era viver na margem, na exclusão. Ser samaritano era ser vítima da discriminação, do preconceito, do isolamento do povo judeu. Ser samaritano era carregar o estigma da exclusão. Por serem considerados impuros, eram tidos como a pior raça existente. Carlos Mesters e Francisco Orofino nos ajudam entender esse contexto: Os samaritanos eram desprezados pelos judeus. Este desprezo vinha de longe, desde o século VIII antes de Cristo (2Rs 17,24-41), e transparece em alguns livros do Antigo Testamento. O livro do Eclesiástico, por exemplo, fala de um ‘povo estúpido que mora em Siquém, que nem sequer é nação" (Eclo 50,25-26). Muitos judeus da Galiléia, quando viajavam para Jerusalém, não passavam pela Samaria. O Evangelho de João mostra Jesus fazendo o contrário, passando pela Samaria e acolhendo os samaritanos. Por causa disso, era criticado pelos judeus, que o xingavam de "samaritano, possesso de demônio" (Jo 8,48). Depois da ressurreição, os seguidores e as seguidoras de Jesus, superaram seus preconceitos e anunciaram a Boa Nova aos samaritanos (At 8,4-8). Nas ‘comunidades do Discípulo Amado' havia muitos samaritanos.
Nessa reflexão e vivência queremos olhar pra Jesus e pensar também em quais “Samarias” nós precisamos entrar e quais “Samarias” precisamos acolher? Quem são os discriminados de hoje em uma cultura que “se acha” superior? Quem são, hoje, os excluídos? Entre os/as jovens, quem são os/as samaritanos? Os/as jovens que estão nas periferias das grandes cidades? Os/as jovens do campo? Os/as jovens negros? As jovens mulheres? Os/as jovens homossexuais? Os/as jovens portadores de necessidades especiais? Os/as jovens que lutam por seus direitos? Os/as jovens migrantes? Os/as jovens que questionam? Os/as jovens ateus ou de outras religiões? Quem são, hoje, os/as jovens que estão excluídos? Que sofrem com o preconceito?
Jesus e a Samaritana são o exemplo de que a aproximação, a acolhida e o diálogo quebram aquilo tudo que os separa. Há disposição dos dois lados em um entrar na vida e na cultura do outro. O diálogo transforma a samaritana que vai anunciar: "venham ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Será que ele é o Messias?". O diálogo transforma também Jesus que percebe nela – no diferente – a presença de Deus.
De quantas realidades juvenis nós precisamos nos aproximar! Quantas e quantas realidades que necessitam o reconhecimento do divino que brota deles e que os torna sagrados! Quanto nos falta de capacidade de diálogo. De ouvir. De dizer com ternura e cuidado! É o mestre que nos pede pra revitalizarmos esse nosso caminho. O caminho da juventude!
Vamos encher nossos baldes de diálogo, de acolhida, de aproximação, de ternura... E com eles cheios vamos rompendo estruturas e fronteiras que nos impedem de amar...!



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Mantra: 

Com diálogo e amor, da exclusão, Jesus nos tirou.
Caminhando com a juventude, a boa nova, Ele anunciou.

  

Cladilson Nardino, estudante de Eng. Civil, membro da coordenação arquidiocesana da PJ de Curitiba/PR 
Luis Duarte Vieira – Noviço Jesuíta e Militante da Pastoral da Juventude 
Maicon André Malacarne – Padre, assessor da Pastoral da Juventude da Diocese de Erexim/RS


Fonte: Andança Jovem

terça-feira, 29 de abril de 2014

A Semana da Cidadania e a Reforma Política


A Pastoral da Juventude organiza a cada ano a Semana da Cidadania, neste ano o tema é a reforma política.É um tema que toca direto a vida da juventude porque envolve questões estruturais neste país.

Os movimentos sociais lançaram um projeto de iniciativa popular para pedir esta reforma política. Ele consiste em uma coleta de assinaturas para alterar a lei, de modo especial, no que se refere aos financiamentos das campanhas eleitorais. Esta mudança pode alterar e muito os interesses que estão em jogo tanto no Senado como na Câmara Federal.

Esse movimento pede de todos/as nós mobilização de coleta de assinaturas. Temos que coletar mais de um milhão de assinaturas para poder fazer valer as mudanças que queremos. Por isto, convocamos a todas as pessoas para entrar na página baixar a folha de coleta de assinaturas e enviar para o espaço de coleta de assinaturas mais próximo.


Vamos organizar com os grupos que conhecemos campanhas nas portas das Igrejas. É preciso avisar com antecedência porque exige o número do título eleitoral.

É hora de mudar a cara deste país. Vamos entrar neste Rede. O STF já aprovou por mais de 6 votos. A conjuntura está favorável. Supremo discute sobre a doação de empresas para as campanhas.

Fonte: Cajueiro

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Papa Francisco canoniza João XXIII e João Paulo II


De acordo com informações da agência de notícias do Vaticano, VIS, aproximadamente 500 mil pessoas assistiram hoje, 27, na Praça de São Pedro, à cerimônia de canonização dos papas João XXIII e João Paulo II, e cerca de 300 mil acompanharam o evento pela telas gigantes distribuídas na cidade de Roma.

Estiveram presentes na cerimônia delegações oficiais de mais de cem países, mais de vinte chefes de Estado e personalidades do mundo da política e da cultura.
O papa emérito Bento XVI concelebrou com o papa Francisco, que antes de proceder ao rito da proclamação dos novos santos, dirigiu-se a Bento XVI para abraçá-lo.
Logo após, acompanhado do prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, cardeal Angelo Amato, e dos postuladores das causas, o papa Francisco pronunciou a fórmula de canonização: “Em honra à Santíssima Trindade para exaltação da fé católica e crescimento da vida cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos  Pedro e Paulo e a nossa, Depois de haver refletido profundamente, invocando muitas vezes a ajuda divina e ouvido o parecer de numerosos irmãos no episcopado, declaramos e definimos santos os beatos João XXIII e João Paulo II e os inscrevemos no Catálogo dos Santos, e estabelecemos que em toda a Igreja sejam devotamente honrados entre os Santos. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo”.
Após a leitura do Evangelho, Francisco proferiu a homilia, que segue abaixo, na íntegra:

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
II Domingo de Páscoa (ou da Divina Misericórdia), 27 de abril de 2014
No centro deste domingo, que encerra a Oitava de Páscoa e que São João Paulo II quis dedicar à Misericórdia Divina, encontramos as chagas gloriosas de Jesus ressuscitado.
Já as mostrara quando apareceu pela primeira vez aos Apóstolos, ao anoitecer do dia depois do sábado, o dia da Ressurreição. Mas, naquela noite – como ouvimos –, Tomé não estava; e quando os outros lhe disseram que tinham visto o Senhor, respondeu que, se não visse e tocasse aquelas feridas, não acreditaria. Oito dias depois, Jesus apareceu de novo no meio dos discípulos, no Cenáculo, encontrando-se presente também Tomé; dirigindo-Se a ele, convidou-o a tocar as suas chagas. E então aquele homem sincero, aquele homem habituado a verificar tudo pessoalmente, ajoelhou-se diante de Jesus e disse: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20, 28).
Se as chagas de Jesus podem ser de escândalo para a fé, são também a verificação da fé. Por isso, no corpo de Cristo ressuscitado, as chagas não desaparecem, continuam, porque aquelas chagas são o sinal permanente do amor de Deus por nós, sendo indispensáveis para crer em Deus: não para crer que Deus existe, mas sim que Deus é amor, misericórdia, fidelidade. Citando Isaías, São Pedro escreve aos cristãos: «pelas suas chagas, fostes curados» (1 Ped 2, 24; cf. Is 53, 5).
São João XXIII e SãoJoão Paulo II tiveram a coragem de contemplar as feridas de Jesus, tocar as suas mãos chagadas e o seu lado trespassado. Não tiveram vergonha da carne de Cristo, não se escandalizaram d’Ele, da sua cruz; não tiveram vergonha da carne do irmão (cf. Is 58, 7), porque em cada pessoa atribulada viam Jesus. Foram dois homens corajosos, cheios da parresia do Espírito Santo, e deram testemunho da bondade de Deus, da sua misericórdia, à Igreja e ao mundo.
Foram sacerdotes, bispos e papas do século XX. Conheceram as suas tragédias, mas não foram vencidos por elas. Mais forte, neles, era Deus; mais forte era a fé em Jesus Cristo, Redentor do homem e Senhor da história; mais forte, neles, era a misericórdia de Deus que se manifesta nestas cinco chagas; mais forte era a proximidade materna de Maria.
Nestes dois homens contemplativos das chagas de Cristo e testemunhas da sua misericórdia, habitava «uma esperança viva», juntamente com «uma alegria indescritível e irradiante» (1 Ped 1, 3.8). A esperança e a alegria que Cristo ressuscitado dá aos seus discípulos, e de que nada e ninguém os pode privar. A esperança e a alegria pascais, passadas pelo crisol do despojamento, do aniquilamento, da proximidade aos pecadores levada até ao extremo, até à náusea pela amargura daquele cálice. Estas são a esperança e a alegria que os dois santos Papas receberam como dom do Senhor ressuscitado, tendo-as, por sua vez, doado em abundância ao Povo de Deus, recebendo sua eterna gratidão.
Esta esperança e esta alegria respiravam-se na primeira comunidade dos crentes, em Jerusalém, de que falam os Atos dos Apóstolos (cf. 2, 42-47), que ouvimos na segunda Leitura. É uma comunidade onde se vive o essencial do Evangelho, isto é, o amor, a misericórdia, com simplicidade e fraternidade.
E esta é a imagem de Igreja que o Concílio Vaticano II teve diante de si. João XXIII e João Paulo II colaboraram com o Espírito Santo para restabelecer e atualizar a Igreja segundo a sua fisionomia originária, a fisionomia que lhe deram os santos ao longo dos séculos. Não esqueçamos que são precisamente os santos que levam avante e fazem crescer a Igreja. Na convocação do Concílio, São João XXIII demonstrou uma delicada docilidade ao Espírito Santo, deixou-se conduzir e foi para a Igreja um pastor, um guia-guiado, guiado pelo Espírito. Este foi o seu grande serviço à Igreja; por isso gosto de pensar nele como o Papa da docilidade ao Espírito Santo.
Neste serviço ao Povo de Deus, São João Paulo II foi o Papa da família. Ele mesmo disse uma vez que assim gostaria de ser lembrado: como o Papa da família. Apraz-me sublinhá-lo no momento em que estamos a viver um caminho sinodal sobre a família e com as famílias, um caminho que ele seguramente acompanha e sustenta do Céu.
Que estes dois novos santos Pastores do Povo de Deus intercedam pela Igreja para que, durante estes dois anos de caminho sinodal, seja dócil ao Espírito Santo no serviço pastoral à família. Que ambos nos ensinem a não nos escandalizarmos das chagas de Cristo, a penetrarmos no mistério da misericórdia divina que sempre espera, sempre perdoa, porque sempre ama.
Fonte: CNBB

domingo, 27 de abril de 2014

A missão da comunidade: a paz esteja com vocês (João 20,19-31)

    
     1. Situando
Na conclusão do capítulo 20 (Jo 20,30-31), o autor diz que Jesus fez “muitos outros sinais que não estão neste livro. Estes, porém, foram escritos (a saber os sete sinais relatados nos capítulos 2 a 11) para que vocês possam crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, acreditando, ter a vida no nome dele” (Jo 20,31). Isso significa que, inicialmente, esta conclusão era o final do Livro dos Sinais. Mais tarde, foi acrescentado o Livro da Glorificação que descreve a hora de Jesus, a sua morte e ressurreição. Assim, o que era o final do Livro dos Sinais passou a ser conclusão também do Livro da Glorificação.

     2. Comentando

1. João 20,19-20: A experiência da ressurreição

Jesus se faz presente na comunidade. As portas fechadas não podem impedir que ele esteja no meio dos que nele acreditam. Até hoje é assim. Quando estamos reunidos, mesmo com todas as portas fechadas, Jesus está no meio de nós. E até hoje, a primeira palavra de Jesus é e será sempre: “A paz esteja com vocês!” Ele mostrou os sinais da paixão nas mãos e no lado. O ressuscitado é o crucificado. O Jesus que está conosco na comunidade não é um Jesus glorioso que não tem mais nada em comum com nossa vida. Mas é o mesmo Jesus que viveu nesta terra, e traz as marcas da sua paixão. As marcas da paixão estão hoje no sofrimento do povo, na fome, nas marcas de tortura, de injustiça. É nas pessoas que reagem, lutam pela vida e não se deixam abater que Jesus ressuscita e se faz presente no meio de nós.

2. João 20,21: O envio: “Como o Pai me enviou, eu envio vocês!”

É deste Jesus, ao mesmo tempo crucificado e ressuscitado, que recebemos a missão, a mesma que ele recebeu do Pai. E ele repete: “A paz esteja com vocês!” Esta dupla repetição acentua a importância da paz. Construir a paz faz parte da missão. Paz significa muito mais do que só ausência de guerra. Significa construir uma convivência humana harmoniosa, em que as pessoas possam ser elas mesmas, tendo todas o necessário para viver, convivendo felizes e em paz. Esta foi a missão de Jesus, e é também a nossa missão. Numa palavra, é criar comunidade a exemplo da comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

3. João 20,22: Jesus comunica o dom do Espírito
Jesus soprou e disse: “Recebei o Espírito Santo.” É só mesmo com a ajuda do Espírito de Jesus que seremos capazes de realizar a missão que ele nos dá. Para as comunidades do Discípulo Amado, Páscoa (ressurreição) e Pentecostes (efusão do Espírito) são a mesma coisa. Tudo acontece no mesmo momento. Sobre a ação do Espírito, veja o Alargando do 5º Círculo.

4. João 20,23: Jesus comunica o poder de perdoar os pecados

O ponto central da missão de paz está na reconciliação, na tentativa de superar as barreiras que nos separam: “Aqueles a quem vocês perdoarem os pecados serão perdoados e aqueles a quem retiverem serão retidos!” Este poder de reconciliar e de perdoar é dado à comunidade (Jo 20,23; Mt 18,18). No Evangelho de Mateus, é dado também a Pedro (Mt 16,19). Aqui se percebe a enorme responsabilidade da comunidade. O texto deixa claro que uma comunidade sem perdão nem reconciliação já não é comunidade cristã.

5. João 20,24-25: A dúvida de Tomé


Tomé, um dos doze, não estava presente. E ele não crê no testemunho dos outros. Tomé é exigente: quer colocar o dedo nas feridas da mão e do pé de Jesus. Quer ver para poder crer. Não é que ele queria ver milagre para poder crer. Não! Tomé queria ver os sinais nas mãos e no lado. Ele não crê num Jesus glorioso, desligado do Jesus bem humano que sofreu na cruz. Sinal de que havia pessoas que não aceitavam a encarnação (2Jo 7; 1Jo 4,2-3; 2,22). A dúvida de Tomé também deixa transparecer como era difícil crer na ressurreição.

6. João 20,26-29: Felizes os que não viram e creram

O texto começa dizendo: “Uma semana depois”. Tomé foi capaz de sustentar sua opinião durante uma semana inteira. Cabeçudo mesmo! Graças a Deus, para nós! Novamente, durante a reunião da comunidade, eles têm uma experiência profunda da presença de Jesus ressuscitado no meio deles. E novamente recebem a missão de paz: “A paz esteja com vocês!” O que chama a atenção é a bondade de Jesus. Ele não critica nem xinga a incredulidade de Tomé, mas aceita o desafio e diz: “Tomé, venha cá colocar seu dedo nas feridas!”. Jesus confirma a convicção de Tomé, que era a convicção de fé das comunidades do Discípulo Amado, a saber: o ressuscitado glorioso é o crucificado torturado. É neste Cristo que Tomé acredita, e nós também. Com ele digamos: “Meu Senhor e meu Deus!” Esta entrega de Tomé é a atitude ideal da fé. E Jesus completa com a mensagem final: “Você acreditou porque viu. Felizes os que não viram e no entanto creram!” Com esta frase, Jesus declara felizes a todos nós que estamos nesta condição: sem termos visto acreditamos que o Jesus que está no nosso meio é o mesmo que morreu crucificado!

7. João 20,30-31: Objetivo do Evangelho: levar a crer para ter vida


Assim termina o Evangelho, lembrando que a preocupação maior de João é a Vida. É o que Jesus diz: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

     3. Alargando
Shalom: a construção da paz

O primeiro encontro entre Jesus ressuscitado e seus discípulos é marcado pela saudação feita por ele: “A paz esteja com vocês!” Por duas vezes Jesus deseja a paz a seus amigos. Esta saudação é muito comum entre os judeus e na Bíblia. Ela aparece quando surge um mensageiro da parte de Deus (Jz 6,23; Tb 12,17). Logo em seguida, Jesus os envia em missão, soprando sobre eles o Espírito. Paz, Missão e Espírito! Os três estão juntos. Afinal, construir a paz é a missão dos discípulos e das discípulas de Jesus (Mt 10,13; Lc 10,5). O Reino de Deus, pregado e realizado por Jesus e continuado pelas comunidades animadas pelo Espírito, manifesta-se na paz (Lc 1,79; 2,14). O Evangelho de João mostra que esta paz, para ser verdadeira, deve ser a paz trazida por Jesus (Jo 14,27). Uma paz diferente da paz construída pelo Império Romano.

Paz na Bíblia (em hebraico é shalom) é uma palavra muito rica, significando uma série de atitudes e desejos do ser humano. Paz significa integridade da pessoa diante de Deus e dos outros. Significa também uma vida plena, feliz, abundante (Jo 10,10). A paz é sinal da presença de Deus, porque o nosso Deus é um “Deus da paz” (Jz 6, 24; Rm 15,33). Por isso mesmo, a proposta de paz trazida por Jesus também é sinal de “espada” (Mt 10,34), ou seja, de perseguições para as comunidades.

O próprio Jesus faz este alerta sobre as tribulações promovidas pelo Império tentando matar a paz de Deus (Jo 16,33). É preciso confiar, lutar, trabalhar, perseverar no Espírito para que um dia a paz de Deus triunfe. Neste dia, “amor e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam” (Sl 85,11). Então, como ensina Paulo, “o Reino será justiça, paz e alegria como fruto do Espírito Santo” (Rm 14,17), e “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28).
 

Trecho extraído da publicação Raio-X da VidaCírculos Bíblicos do Evangelho de João (24º Círculo Bíblico).

sábado, 26 de abril de 2014

CPT lança relatório sobre "Conflitos no Campo Brasil 2013"

A Comissão Pastoral da Terra, organismo vinculado à CNBB, divulgará na próxima segunda-feira, 28, às 14h, na sede da CNBB, em Brasília, a 29ª edição do relatório “Conflitos no Campo Brasil”. O texto apresenta dados sobre os conflitos e violências sofridos pelos trabalhadores e trabalhadoras rurais no país, entre eles indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais, no ano de 2013.
Estarão presentes no evento o presidente da CPT, dom Enemésio Lazzaris, o secretário da coordenação nacional do organismo, Antônio Canuto, o professor da Universidade Federal Fluminense, Carlos Walter Porto-Gonçalves, entre outros.
Segundo dados da Comissão, em 2013, foram assassinadas 34 pessoas em situação de conflitos no campo, sendo 15 indígenas. Houve 15 tentativas de assassinatos registradas no relatório, também 10 se referem a indígenas. Além disso, 33 indígenas foram ameaçados de morte, de um total de 241 pessoas.
A CPT informa, ainda, que a Amazônia permanece como palco principal dos conflitos. Dos 34 assassinatos, 20 ocorreram na região.
Informações sobre o lançamento do relatório "Conflitos no Campo Brasil 2013" pelos telefones: (62) 4008-6406 ou (62)  4008-6412.  
Fonte: CNBB

terça-feira, 22 de abril de 2014

Compaixão: utopia e missão


“Mostra-nos, Senhor, Teu amor e compaixão, e concede-nos a Tua Salvação.” Salmo 85,8 

Era meio dia. O sol ardia sobre nossas peles. Estamos, com Jesus e com as juventudes, em Samaria. 

Rompendo o silêncio, na comunhão dos corações, um jovem marcado pelas dores e amores de sua vida, perguntou a Jesus: 

- Por que há tanto ódio? Tanta dor? Tanto sofrimento? Porque tanta morte? Tanto tráfico de pessoas? 

Jesus olhou aquele jovem. Observou seus olhos. Sentiu suas dores. Seus amores. Suas lutas e sofrimentos. 

- É que ainda falta compaixão. Ainda falta amor. 

Imediatamente, uma jovem pediu: 

- Senhor, nos ensine sobre a compaixão! 

Jesus olhou nos olhos dos/as jovens que ali estavam. E lá estávamos todos. Todas as juventudes de nosso Continente. Olhou. Amou. E contou: 

"Um homem ia descendo de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes, que lhe arrancaram tudo, e o espancaram. Depois foram embora, e o deixaram quase morto. Por acaso um sacerdote estava descendo por aquele caminho; quando viu o homem, passou adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu, e passou adiante, pelo outro lado. Mas um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele, viu, e teve compaixão. Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal, e o levou a uma pensão, onde cuidou dele. No dia seguinte, pegou duas moedas de prata, e as entregou ao dono da pensão, recomendando: ‘Tome conta dele. Quando eu voltar, vou pagar o que ele tiver gasto a mais'" (Lc 10, 30-35). 

Fez-se longo silêncio. É que diante da compaixão resta-nos silêncio, silêncio de acolhida e deixar a história virar carne em nossa carne. Silêncio do amor. Silêncio também de quando somos egoístas com as dores e machucados da humanidade. Silêncio que nos faz amar e revisar a vida. 

De repente uma jovem exclamou: 

- Oxalá de nosso poço, no serviço a juventude, brote correntes de compaixão que inunde nossas vidas. Que encha a humanidade de amor e cuidado! 

Todos/as responderam num só coro: 
- Amém! 

Mantra: 

Compaixão, Tu ensinaste aos nossos jovens com seu amor! 
Em nossos poços, tens água viva para humanidade, cuidado e amor... 
Em nossos poços, tens água viva para humanidade, cuidado e amor... 

Cladilson Nardino, estudante de Eng. Civil, membro da coordenação arquidiocesana da PJ de Curitiba/PR 

Luis Duarte Vieira – Noviço Jesuíta e Militante da Pastoral da Juventude 

Maicon André Malacarne – Padre, assessor da Pastoral da Juventude da Diocese de Erexim/RS 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Mensagem Urbi et Orbi do papa Francisco - Páscoa de 2014

O papa Francisco presidiu neste domingo, 20, Missa de Páscoa, na Praça de São Pedro. Participaram da celebração cerca de 100 mil fieis. Ao final da missa, Francisco concedeu a bênção Urbi et Orbi (à cidade de Roma e ao mundo). Leia, na íntegra, a mensagem do papa.
Mensagem Urbi et Orbi do papa Francisco - Páscoa de 2014
Amados irmãos e irmãs, boa e santa Páscoa!
Ressoa na Igreja espalhada por todo o mundo o anúncio do anjo às mulheres: «Não tenhais medo. Sei que buscais Jesus, o crucificado; não está aqui, pois ressuscitou (...). Vinde, vede o lugar onde jazia» ( Mt 28, 5-6).
Este é o ponto culminante do Evangelho, é a Boa Nova por excelência: Jesus, o crucificado, ressuscitou! Este acontecimento está na base da nossa fé e da nossa esperança: se Cristo não tivesse ressuscitado, o cristianismo perderia o seu valor; toda a missão da Igreja via esgotar-se o seu ímpeto, porque dali partiu e sempre parte de novo. A mensagem que os cristãos levam ao mundo é esta: Jesus, o Amor encarnado, morreu na cruz pelos nossos pecados, mas Deus Pai ressuscitou-O e fê-Lo Senhor da vida e da morte. Em Jesus, o Amor triunfou sobre o ódio, a misericórdia sobre o pecado, o bem sobre o mal, a verdade sobre a mentira, a vida sobre a morte.
Por isso, nós dizemos a todos: «Vinde e vede». Em cada situação humana, marcada pela fragilidade, o pecado e a morte, a Boa Nova não é apenas uma palavra, mas é um testemunho de amor gratuito e fiel: é sair de si mesmo para ir ao encontro do outro, é permanecer junto de quem a vida feriu, é partilhar com quem não tem o necessário, é ficar ao lado de quem está doente, é idoso ou excluído... « Vinde e vede»: o Amor é mais forte, o Amor dá vida, o Amor faz florescer a esperança no deserto.
Com esta jubilosa certeza no coração, hoje voltamo-nos para Vós, Senhor ressuscitado!
Ajudai-nos a procurar-Vos para que todos possamos encontrar-Vos, saber que temos um Pai e não nos sentimos órfãos; que podemos amar-Vos e adorar-Vos.
Ajudai-nos a vencer a chaga da fome, agravada pelos conflitos e por um desperdício imenso de que muitas vezes somos cúmplices.
Tornai-nos capazes de proteger os indefesos, sobretudo as crianças, as mulheres e os idosos, por vezes objeto de exploração e de abandono.
Fazei que possamos cuidar dos irmãos atingidos pela epidemia de ebola na Guiné Conacri, Serra Leoa e Libéria, e daqueles que são afetados por tantas outras doenças, que se difundem também pela negligência e a pobreza extrema.
Consolai quantos hoje não podem celebrar a Páscoa com os seus entes queridos porque foram arrancados injustamente dos seus carinhos, como as numerosas pessoas, sacerdotes e leigos, que foram sequestradas em diferentes partes do mundo.
Confortai aqueles que deixaram as suas terras emigrando para lugares onde possam esperar um futuro melhor, viver a própria vida com dignidade e, não raro, professar livremente a sua fé.
Pedimo-Vos, Jesus glorioso, que façais cessar toda a guerra, toda a hostilidade grande ou pequena, antiga ou recente!
Suplicamo-Vos, em particular, pela Síria, a amada Síria, para que quantos sofrem as consequências do conflito possam receber a ajuda humanitária necessária e as partes em causa cessem de usar a força para semear morte, sobretudo contra a população inerme, mas tenham a audácia de negociar a paz, há tanto tempo esperada.
Jesus glorioso, pedimo-vos que conforteis as vítimas das violências fratricidas no Iraque e sustenteis as esperanças suscitadas pela retomada das negociações entre israelitas e palestinianos.
Imploramo-Vos que se ponha fim aos combates na República Centro-Africana e que cessem os hediondos ataques terroristas em algumas zonas da Nigéria e as violências no Sudão do Sul.
Pedimos-Vos que os ânimos se inclinem para a reconciliação e a concórdia fraterna na Venezuela.
Pela vossa Ressurreição, que este ano celebramos juntamente com as Igrejas que seguem o calendário juliano, vos pedimos que ilumine e inspire as iniciativas de pacificação na Ucrânia, para que todas as partes interessadas, apoiadas pela Comunidade internacional, possam empreender todo esforço para impedir a violência e construir, num espírito de unidade e diálogo, o futuro do País. Que eles como irmãos possam cantar Хрhctос Воскрес.
Pedimo-Vos, Senhor, por todos os povos da terra: Vós que vencestes a morte, dai-nos a vossa vida, dai-nos a vossa paz! Queridos irmãos e irmãs, feliz Páscoa!
Saudação
Queridos irmãos e irmãs,
Renovo os meus votos de feliz Páscoa a todos vós reunidos nesta Praça, vindos de todas as partes do mundo. Estendo as minhas felicitações pascais a todos que, de diversos países, estão conectados através dos meios de comunicação social. Levai às vossa famílias e às vossas comunidades o feliz anúncio que Cristo nossa paz e nossa esperança ressuscitou!
Obrigado pela vossa presença, pela vossa oração e pelo vosso testemunho de fé. Um pensamento particular e de reconhecimento pelo dom das belíssimas flores, oriundas dos Países Baixos. Feliz Páscoa para todos!

Fonte: CNBB

sábado, 19 de abril de 2014

O reencontro de Jesus com Maria Madalena: buscar sempre, sem desanimar (Jo 20,11-18)


O capítulo 20 do Evangelho de João traz alguns episódios que nos transmitem a experiência e a ideia da ressurreição que existia nas comunidades do Discípulo Amado. Eis o conteúdo:

1. Maria Madalena vai ao sepulcro, vê a pedra retirada e chama os apóstolos. O Discípulo Amado e Pedro vão verificar o acontecido. O Discípulo Amado viu e acreditou (Jo 20,1-10).

2. Maria Madalena reencontra Jesus e tem uma experiência de ressurreição (Jo 20,11-18).

3. A experiência de ressurreição da comunidade dos discípulos (Jo 20,19-23).

4. Uma nova experiência comunitária de ressurreição com Tomé (Jo 20,24-29).

5. Conclusão: o objetivo da redação do evangelho é levar as pessoas a crerem em Jesus e, acreditando nele, terem a vida (Jo 20,30-31).

2. Na maneira de descrever a aparição de Jesus a Maria Madalena, transparecem as etapas da travessia que ela teve de fazer, desde a busca dolorosa até o reencontro da Páscoa. Estas são também as etapas pelas quais passamos todos nós, ao longo da vida, na busca em direção a Deus e na vivência do Evangelho.

Comentando

1. João 20,11-13: Maria Madalena chora, mas busca

Havia um amor muito grande entre Jesus e Maria Madalena. Ela foi uma das poucas pessoas que tiveram a coragem de ficar com Jesus até a hora da sua morte na cruz.

Depois do repouso obrigatório do sábado, ela voltou ao sepulcro para estar no lugar onde tinha encontrado o Amado pela última vez. Mas, para a sua surpresa, o sepulcro estava vazio. Os anjos perguntam: “Por que você chora?” Resposta: “Levaram meu senhor e não sei onde o colocaram!” Maria Madalena busca o Jesus que tinha conhecido e com quem tinha convivido durante três anos.

2. João 20,14-15: Maria Madalena conversa com Jesus sem reconhecê-lo

Os discípulos de Emaús viram Jesus, mas não o reconheceram (Lc 24,15-16). O mesmo acontece com Maria Madalena. Ela vê Jesus, mas não o reconhece. Pensa que é o jardineiro. Como os anjos, Jesus pergunta: “Por que você chora?” E acrescenta: “A quem está procurando?” Resposta: “Se foi você que o levou, diga-me, que eu vou buscá-lo!” Ela ainda busca o Jesus do passado, o mesmo de três dias atrás. A imagem do Jesus do passado impede que ela reconheça o Jesus vivo, presente na frente dela.

3. João 20,16: Maria Madalena reconhece Jesus

Jesus pronuncia o nome: “Maria!” Foi o sinal de reconhecimento: a mesma voz, o mesmo jeito de pronunciar o nome. Ela responde: “Mestre!” Jesus tinha voltado, o mesmo que tinha morrido na cruz. A primeira impressão é de que a morte foi apenas um incidente doloroso de percurso, mas que agora tudo tinha voltado a ser como antes. Maria abraça Jesus com força. Era o mesmo Jesus que ela conhecera e amara. Aqui se realiza o que Jesus disse na parábola do Bom Pastor: “Ele as chama pelo nome, e elas conhecem a sua voz.” - “Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem” (Jo 10,3.4.14).

4. João 20,17-18: Maria Madalena recebe a missão de anunciar a ressurreição aos apóstolos

De fato, é o mesmo Jesus, mas a maneira de estar junto dela já não é mais a mesma. Jesus lhe diz: “Não me segure, porque ainda não subi para o Pai!” Ele vai para junto do Pai. Maria Madalena deve soltar Jesus e assumir sua missão: anunciar aos irmãos que ele, Jesus, subiu para o Pai. Jesus abriu o caminho para nós e fez com que Deus ficasse, de novo, perto de nós.

Maria Madalena e o discipulado das mulheres

Nos Evangelhos, muitas vezes, Maria Madalena é citada nominalmente: como discípula de Jesus (Lc 8,1-2); como testemunha da sua crucifixão (Mc 15,40-41; Mt 27,55-56; Jo 19,25); como testemunha do seu sepultamento (Mc 15,47; Mt 27,61); como testemunha da sua ressurreição (Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-10; Jo 20,1.11-18); como enviada aos Onze com uma mensagem de Jesus (Mt 28,10; Jo 20,17-18). Nenhum texto do Evangelho diz que Maria Madalena foi uma pecadora.

Teriam interpretado mal a expressão “Maria Madalena da qual haviam saído sete demônios” (Lc 8,2)? Esta expressão, que aparece somente em Lucas e no apêndice de Marcos (Lc 8,2; Mc 16,9), criou uma série de preconceitos contra Maria Madalena. Mas, para o Evangelho de Lucas, a possessão não significa pecado, e sim doença.

O número 7, sempre simbólico, parece indicar a gravidade da situação. No contexto de Lucas, podemos interpretar que Maria Madalena padecia de uma grave doença nervosa ou psicossomática. No encontro com Jesus, ela recupera a harmonia interior e entra em um processo de crescimento e amadurecimento pessoal até atingir a plenitude do seu ser na experiência pascal.

Encontramos nos quatro evangelhos várias listas com os nomes dos 12 discípulos que seguiam Jesus. Havia também mulheres que o seguiam desde a Galileia até Jerusalém. O Evangelho de Marcos define a atitude delas com três palavras: seguir, servir, subir até Jerusalém (Mc 15,41). Os primeiros cristãos não chegaram a elaborar uma lista destas discípulas que seguiam Jesus como o fizeram com os homens. Mas os nomes de seis destas mulheres estão espalhados pelas páginas dos evangelhos: Maria Madalena (Lc 8,3), Joana, mulher de Cuza (Lc 8,3), Suzana (Lc 8,3), Salomé (Mc 15,40), Maria, mãe de Tiago e José (Mc 15,40), e a mãe dos filhos de Zebedeu (Mt 27,56). Em todos estes textos, exceto João 19,25, Maria Madalena é citada em primeiro lugar, indicando sua liderança no grupo de discípulas de Jesus. Há muitas outras mulheres, amigas de Jesus, que são nomeadas nos evangelhos, por exemplo, as duas irmãs Marta e Maria, mas só destas seis se diz que “seguiam a Jesus desde a Galileia” (Mt 27,55-56; Mc 15,41) ou que “o acompanhavam junto aos Doze” (Lc 8,1-3).

Trecho extraído da publicação Raio-X da VidaCírculos Bíblicos do Evangelho de João.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Via Sacra: Descobrir nas feridas do mundo a face luminosa de Cristo



Entrevista com Dom Giancarlo Bregantini, autor das meditações da Via Sacra, que será presidida pelo Papa Francisco no Coliseu

É um “sacerdote de rua”, como gosta o Papa Francisco, nunca debruçado sobre a escrivaninha, mas sempre sobre o sofrimento dos outros e da diocese. Foi escolhido pelo próprio Papa Francisco para escrever as meditações da Via Sacra da Sexta-Feira Santa no Coliseu. Trata-se de Dom Giancarlo Bregantini, Arcebispo de Campobasso – Boiano, Itália. Presidente da Comissão para os problemas sociais e de trabalho, justiça e paz da Conferência Episcopal Italiana (CEI), há 14 anos à frente da Diocese de Locri, na Calábria. No sul da Itália, o prelado entrou em contato com a realidade da pobreza e do crime organizado, contra o qual ele luta com o corpo e a alma. Ele entrou para a história com o seu livro de orações ” A oração desafia a máfia”. Os 14 anos de pastoral são revividos agora nos textos das 14 Estações da Via Sacra, publicação da Libreria Editrice Vaticana. Nos textos, o arcebispo coloca o dedo nas feridas do mundo atual através de uma espiritualidade radical e dolorosa, que toca a crise, o desemprego, a mortalidade infantil, a corrupção, a violência contra a mulher, e os sofrimentos de Cristo no caminho para o Gólgota. Sobre tudo isso ZENIT conversou com Bregantini, na seguinte entrevista:
A visita do Papa a Campobasso e Isernia em 5 de julho e a escolha do senhor como autor das meditações da Via Sacra. Uma dupla atenção do Pontífice para com a Igreja da região. Como o senhor vive isso?
Dom Bregantini: Ainda não sei por que o Papa escolheu-me para escrever as meditações da Via Sacra. Mas posso dizer que estou profundamente grato, porque através das estações, eu revivi muitos momentos da minha vida, tanto durante os anos na Calabria, em fábricas e prisões, como em Locri, com o desafio da máfia, e agora em Molise, uma região da periferia. Todas essas experiências que Deus me permitiu viver voltaram para a superfície como uma memória positiva de bênção, memorial de graça e de alegria, mas também de coragem diante das provações da vida.
Sua diocese já começou a trabalhar para receber o Papa?
Dom Bregantini: Sim! Eu vim para Roma apenas para organizar a recepção do Santo Padre. Traçamos um roteiro muito interessante para a visita, junto com o bispo de Isernia e a Casa Pontifícia. Vamos destacar quatro pontos em particular: o mundo rural, o serviço para os pobres, a prisão e os doentes.
Falando sobre as meditações, o tema é “Rosto de Cristo, rosto do homem”. O rosto do homem que emerge de suas reflexões é aquele dos desempregados, vítimas da corrupção, da usura. Assim como o rosto dos imigrantes, das mulheres que sofrem violência, crianças que sofreram abusos, dos doentes. Como o senhor encontrou o rosto de Deus em tudo isso?
Dom Bregantini: Por que se unem dois verbos: o rosto de Cristo ilumina todos os sofrimentos do homem. E o rosto do homem encarna a luz de Jesus. Como dizem os Padres da Igreja, “não poderia haver redenção sem um Jesus que se fez homem para que o homem se tornasse Deus”. Então, o rosto de Cristo é luz, enquanto o do homem é a história, profecia realizada. A beleza da Via Sacra é o fato de que Jesus passou por todos os sofrimentos do homem. Isso toca muito os jovens que não vêem nisso um livro, uma aula, mas um rosto manchado de sangue que reflete o próprio rosto marcado, talvez pelo medo do desemprego, do crime, da violência e do sofrimento que caracterizam o mundo atual. Esta é a força avassaladora que tem a Via Sacra.
Amplo espaço é dedicado às realidades sociais do sul da Itália, tais como as crianças mortas por câncer causado ​​por resíduos tóxicos e as condições dos detentos nas prisões. Mas, acima de tudo, o fio condutor é a máfia, um tema para o senhor muito “caro”, recordando o forte empenho pastoral contra a Ndrangheta em Locri. Nesse caso, ainda falamos de meditação ou de verdadeira denúncia?
Dom Bregantini: O tema da máfia aparece muitas vezes na meditação, mesmo que, na realidade, mencionado apenas indiretamente. Falo como o mal que está na base da corrupção e de outros crimes, como uma força negativa na sociedade, como uma acusação contra a poluição, o pesado fardo da crise econômica, os suicídios de agricultores, infelizmente, matéria trágica de todos os dias…
Sobre a Máfia, gostaria de saber a opinião do senhor sobre as recentes diretivas da Conferência Episcopal da Calábria para os seminários, que afirmam que os seminaristas devem estudar a ‘Ndrangheta, de acordo com as instruções do papa Francisco sobre a “coragem de denunciar” e “fuga de qualquer conivência”.
Dom Bregantini: Estou muito feliz! Eu vejo se realizar muitas coisas que tenho escrito, muitas escolhas que tomamos junto com outros bispos, nestes 14 anos, na experiência de todos os dias. Estou feliz com esta decisão porque o futuro sacerdote, desde a sua formação, será capaz de se preparar, de ler os fatos, para não viver de “conversa de bar” e não apenas repetir as coisas comuns na homilia. Estudando e aprendendo sobre estes dramas, o padre não vai ter medo, mas será capaz de criar e dar uma cara nova a uma Igreja profética.
De todos os males sociais listados qual é, em sua opinião, o pior, o que deve urgentemente ser curado?
Dom Bregantini: Certamente o desemprego, a crise que leva à precariedade e que contamina a maioria das novas gerações. Os jovens são obrigados a enfrentar mil problemas diariamente por causas que não dependem deles. E isso, na minha opinião, é o mal mais grave atualmente.
Em suas meditações não há apenas sofrimento, mas também muita esperança…
Dom Bregantini: É verdade. A mensagem de esperança é dada por quatro figuras maravilhosas que devolvem “o sorriso” à Via Cruz. Primeiro o do Cirineu que carrega a cruz com Jesus e que eu imaginei todo o mundo do voluntariado, das relações de solidariedade. Depois, a doçura gratuita de Veronica que representa tudo o que se faz não para ter, mas para dar. Aqui, um aceno indireto ao tema do domingo que deve ser sagradamente respeitado, e que eu gostaria de ter desenvolvido mais explicitamente. Terceiro elemento, muito belo, são as mulheres de Jerusalém, ao qual dediquei mais espaço do que todos os outros…
Como assim?
Dom Bregantini: Por que é uma questão de grande relevância. Basta pensar no ‘femicídio’! Eu quis restaurar a imagem da mulher como sujeito, não como um objeto. Sujeito de esperança, por isso, como uma questão muito delicada, que Jesus pede compaixão, e não pena. A diferença é enorme: a compaixão amadurece a pessoa, enquanto a pena esmaga. Cristo sofre e quer as mulheres próximas a Ele neste sofrimento; no entanto, quer sofrer com dignidade. É importante para entender que as situações não são resolvidas assim: “olha aquele pobrezinho, o que aconteceu com ele”, mas através da força que está enraizada na dor do outro, que se torna própria e resgata.
Qual é o quarto elemento das meditações?
Dom Bregantini: É o abraço entre Maria e Jesus, retratado de uma forma sublime na Pietà de Michelangelo. O momento em que a Virgem abraça o seu Filho morto, ao qual eu associei toda a doçura e a beleza de uma mãe que nunca esqueceu seu filho no céu. Eu pensei em todas as mães que perderam seus filhos em um acidente ou por um delito da máfia, mas sentem que este filho não está perdido, se ele é amado, porque o amor – diz o Cântico dos Cânticos – é mais forte do que a morte.
O que o senhor espera despertar nas pessoas com as suas meditações?
Dom Bregantini: Eu dei o meu coração e tudo o que ele viveu. Portanto, espero que aqueles que lêem as meditações não se sintam esmagados sob o peso da cruz, mas que essa mesma cruz, como resgatou o meu coração, possa resgatar o coração de todos.
O que o Papa disse sobre tudo isso?
Dom Bregantini: Nada, eu ainda tenho que encontra-lo. Espero que esteja feliz …
Da Agência Zenit