sábado, 30 de março de 2013

Morte e Ressurreição: o mistério pascal


O texto de Lucas conta como foram a morte, o enterro e a res­surreição de Jesus. Mas ele conta os fatos de tal maneira, que a gente consiga perceber a semente de esperança e de vida nova que pode nascer da crise, da dor e da morte. Na hora em que a luz bate nos olhos, tudo escurece. Na hora do parto, as dores se anunciam. Na hora da crise, o futuro se abre. Na hora da morte, a vida renasce. 
O texto descreve o que se passou desde a morte e o enterro de Jesus até a experiência da sua ressurreição. Durante a leitura vamos prestar atenção no se­guinte: “Quais são, um depois do outro, os acontecimentos descritos neste texto?”

SITUANDO
Os inimigos conseguem realizar o seu projeto. Matam Jesus. Vencem, usando o poder da força bruta. Vencem, mas não convencem! Não conseguem destruir nem abafar a bondade e o amor em Jesus. Pelo contrário! Lucas mostra como Jesus, exatamente enquanto está sendo vítima do ódio e da crueldade dos homens, revela a ternura de Deus e nos dá a “suprema prova do amor!” (Jo 13,1). Eis algumas frases de Jesus que só Lucas nos conservou e nas quais transparece a vitória da vida que a morte não conseguiu matar: “Desejei ar­dentemente comer esta páscoa com vocês” (22,15). “Façam isto em memória de mim!” (22,19). “Simão, rezei por você, para que não desfaleça a sua fé!” (22,32). Na hora da negação de Pedro, Jesus fixa nele o olhar, provocando o choro de arrependimento (22,61). No caminho do calvário, Jesus acolhe as mulheres: “Fi­lhas de Jerusalém, não chorem por mim!” (23,28). Na hora de ser pregado na cruz, ele reza: “Pai, perdoa, porque não sabem o que fazem” (23,34). Ao ladrão pendurado na cruz a seu lado ele diz: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso!” (23,43). Estas frases nos dão os olhos certos para ler e saborear a descrição da morte, do enterro e da ressurreição de Jesus.

COMENTANDO
1. Lucas 23,44-46: A morte de Jesus
Jesus está pendurado na Cruz. A morte está chegando. Ao meio-dia, o sol escurece, as trevas invadem a terra. Estes fenômenos da natureza interpretam o significado da morte de Jesus. Simbolizam a chegada do Reino. O véu do san­tuário rasgou-se ao meio. Terminou a vigência do Antigo Testamento, simboli­zado pelo Templo, cujo véu separava Deus do resto do mundo. Pela sua vida, paixão, morte e ressurreição, Jesus trouxe Deus para perto de nós e revelou a sua presença em tudo que existe e acontece. Na hora de morrer, Jesus dá um forte grito. O grito do povo oprimido deu início ao primeiro êxodo (Ex 2,23-25), pois Deus escutou o grito do povo. Escuta também o grito de Jesus, fazendo com que se realize o novo êxodo. Jesus resume toda a sua vida dizendo: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Com esta frase do salmo (Sl 31,6), Jesus devolve ao Pai o Espírito que dele tinha recebido na hora do batismo (Lc 3,22).
Foi na força do Espírito que Jesus iniciou a sua missão. É na força do mesmo Espírito que ele a encerra.
2. Lucas 23,47-48: As reações diante da morte de Jesus
Um estrangeiro, centurião do exército romano, vendo o que acontecera na hora da morte de Jesus, faz uma profissão de fé: “Realmente, este homem era um justo!” Justo é aquele que realiza o objetivo da Lei de Deus. Jesus realizou a Lei, transgredindo normas inúteis, abrindo novos caminhos e acolhendo a todos, inclusive aos pagãos. A multidão, vendo o que tinha acontecido, volta para casa batendo no peito. Reconhece o erro que cometeu pedindo a conde­nação de Jesus.
3. Lucas 23,49: As testemunhas da morte de Jesus
Os amigos e as mulheres que o haviam acompanhado desde a Galileia per­manecem à distância, observando tudo. Testemunham que foi assim que Jesus morreu. Aqui, Lucas indica a fonte de onde recolheu parte do material que aca­ba de contar.
4. Lucas 23,50-54: O enterro de Jesus
José de Arimateia, membro do Sinédrio, que não concordara com a conde­nação de Jesus, cuida do enterro. Jesus é enterrado num sepulcro novo, talhado na rocha. Realiza-se, assim, outra profecia de Isaías sobre o Servo que dizia: “Seu túmulo está com os ricos” (Is 53,9). Lucas insiste em dizer: “Era o dia da Preparação. O sábado estava quase começando”. O sábado é o 7° dia. Estava ter­minando o 6° dia da nova criação. Jesus descansa no 7° dia.
5. Lucas 23,55-56: As mulheres, testemunhas do enterro de Jesus
As mulheres testemunham também o lugar onde foi colocado o corpo de Jesus. Havia, ali, muitos sepulcros, alguns fechados, outros abertos. Quem não soubesse bem onde Jesus havia sido enterrado poderia enganar-se. Mas elas seguem José de Arimateia, observam bem o túmulo, veem o lugar, fixam na memória. Aquele sepulcro aberto do domingo de Páscoa é realmente de Jesus! Não é um engano! Em seguida, elas voltam para casa, preparando aromas e perfumes para poder ungir o corpo de Jesus depois do descanso do sábado.
6. Lucas 24,1-3: Os fatos encontrados: túmulo vazio, pedra removida
Seguindo de perto o Evangelho de Marcos, Lucas oferece informações de­talhadas sobre a hora e o lugar. Estes detalhes sugerem que as mulheres são pessoas de confiança para testemunhar a ressurreição. Elas estão convencidas de que Jesus está morto, pois vão para o túmulo para ungi-lo. A sua fé na res­surreição não foi fruto de fantasia, mas algo totalmente inesperado. Quando chegam ao sepulcro, veem que a pedra já tinha sido removida. Entrando dentro do sepulcro não encontram o corpo de Jesus. Estes são os fatos. Qual é o seu significado?
7. Lucas 24,4-8: O significado dos fatos: o anúncio da ressurreição
Dentro do sepulcro, elas encontram dois homens em vestes fulgurantes que lhes interpretam o significado destes fatos inexplicáveis: “Jesus está vivo. Ele ressuscitou!” Elas lembram as palavras do próprio Jesus e as palavras da Escritura. Daqui para a frente, a palavra de Jesus e a palavra da Escritura têm ambas o mesmo valor.
8. Lucas 24,9-12: Os apóstolos não acreditam no testemunho das mulheres
Lucas diz quem são as mulheres: Maria Madalena, Joana e Maria, a mãe de Tiago, bem como as outras que estão com elas. Voltando do sepulcro, elas anun­ciaram a Boa Nova aos Onze, mas estes não lhes dão crédito. Não foram capazes de crer no testemunho das mulheres. Dizem que é um “desvario”, invenção, fofoca. Naquele tempo, as mulheres não podiam ser testemunhas. Ao transmitir a elas a Ordem de anunciar a Boa Nova da ressurreição, Jesus estará pedindo uma mudança total na cabeça das pessoas. Deviam dar crédito a quem, dentro da sociedade daquele tempo, não merecia crédito. Assim, começou a subversão do anúncio da ressurreição! Lucas termina dizendo que Pedro vai ao túmulo, encontra-o vazio e volta para casa. Mas não chega a crer. Fica apenas surpreso.


ALARGANDO
1. A experiência da ressurreição aconteceu, primeiro, nas mulheres (Mt 28,9-10; Mc 16,9; Lc 24,4-11.23; Jo 20,13-16); depois, nos homens. Ela é a confirmação de que, para Deus, uma vida vivida como Jesus é vida vitoriosa. Deus a ressuscita! Em torno desta Boa Nova surgiram as comunidades. Crer na ressurreição o que é? É voltar para Jerusalém, de noite, reunir a comunidade e partilhar as experiências, sem medo dos judeus e dos romanos (Lc 24,33-35). É receber a força do Espírito, abrir as portas e anunciar a Boa Nova à multidão (At 2,4). É ter a coragem de dizer: “É preciso obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5,29). É reconhecer o erro e voltar para a casa do pai: ‘’Teu irmão estava morto e voltou a viver” (Lc 15,32). É sentir a mão de Jesus ressuscitado que, nas horas difíceis, nos diz: “Não tenha medo! Eu sou o Primeiro e o últi­mo. Sou o Vivente. Estive morto, mas eis que estou vivo para sempre. Tenho as chaves da morte e da morada dos mortos” (Ap 1,17s.). É crer que Deus é capaz de tirar vida da própria morte (Hb 11,19). É crer que o mesmo poder usado por Deus para tirar Jesus da morte opera também em nós e nas nossas comunida­des, através da fé (Ef 1,19-23).
2. Até hoje, a ressurreição acontece. Ela nos faz experimentar a presença libertadora de Jesus na comunidade, na vida de cada dia (Mt 18,20), e nos leva a cantar: “Quem nos separará, quem vai nos separar, do amor de Cristo, quem nos separará? Se ele é por nós, quem será contra nós?” Nada, ninguém, auto­ridade nenhuma é capaz de neutralizar o impulso criador da ressurreição de Jesus (Rm 8,38-39). A experiência da ressurreição ilumina a cruz e a transforma em sinal de vida (Lc 24,25-27). Abre os olhos para entender o significado da Sagrada Escritura (Lc 24,25-27.44-48) e ajuda a entender as palavras e gestos do próprio Jesus (Jo 2,21-22; 5,39; 14,26). Uma comunidade que quiser ser teste­munho fiel da Boa Nova da Ressurreição deve ser sinal de vida, lutar pela vida contra as forças da morte. Sobretudo aqui na América Latina, onde a vida do povo corre perigo por causa do sistema de morte que nos foi imposto.
  
TEXTO EXTRAÍDO DO LIVRO "O AVESSO É O LADO CERTO"

Fonte: Centro de Estudos Bíblicos (cebi.org.br)

sexta-feira, 29 de março de 2013

A Paixão do Senhor, a Páscoa da Cruz



“Tão desfigurado estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano.” (Isaías 52, 14b)

Sexta-feira Santa. Cristãos e cristãs de todo o mundo, unimos nossos passos à caminhada da paixão do Senhor até sua morte na cruz. Esta é a parte mais difícil da missão: a prova maior, “a hora”, o martyria (testemunho). Mas não há verdadeira missão a serviço do Reino sem confronto com tudo aquilo que vai contra a proposta de Jesus de Nazaré. Com Jesus na cruz, entregamos nas mãos do Pai o grito de todos os condenados e condenadas à morte. Contemplando e adorando o Crucificado, elevamos nossa oração por toda a humanidade resgatada pelo seu sangue redentor. Comungando de seu corpo, passamos do pecado para a vida que jorra da cruz e recebemos força para, no dia-a-dia, vencer a morte e viver a alegria da ressurreição.

Todos e todas nós, que nos dizemos cristãos e cristãs, somos discípulos e discípulas de um prisioneiro político. Para levar o inocente, o servo sofredor, à cadeia e à morte, até partidos inimigos fizeram as pazes. Jesus, preso, torturado e assassinado na cruz, padeceu sob dois processos. Sua mensagem era fermento na massa e questionava as estruturas sócio-econômicas, pois seu reinado é reinado da verdade, onde a exploração dá lugar à partilha, e a opressão dá lugar à fraternidade, onde a vida está em primeiro lugar. “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundancia” (Jo 10, 10b). O seguimento de Jesus tem dois pólos de tensão: a memória viva e atuante do passado e a resposta corajosa aos desafios atuais.

Ora, o modelo econômico atual cria milhares e milhares de excluídos e excluídas, povos inteiros crucificados, multidão de mulheres e homens, jovens e crianças, que vivem em condições infra-humanas: camponeses sem terra, famílias amontoadas em favelas, trabalhadores/as explorados/as com salários de fome, negros e índios marginalizados, sofredores de rua atirados nas sarjetas, todos/as na linha da exclusão, porque não conseguem produzir dentro da ótica capitalista.

Os Bispos da América Latina e do Caribe, em 1992, na Conferência Episcopal de Santo Domingo nos pediam para enxergar o rosto de Cristo no rosto dos sofredores e sofredoras de hoje. “(...) os rostos desfigurados pela fome, conseqüência da inflação, da dívida externa e das injustiças sociais; os rostos desiludidos pelos políticos que prometem, mas não cumprem; os rostos humilhados por causa de sua própria cultura, que não é respeitada, quando não desprezada; os rostos angustiados dos menores abandonados que caminham por nossas ruas e dormem sob nossas pontes; os rostos sofridos das mulheres humilhadas e desprezadas; os rostos cansados dos migrantes que não encontram digna acolhida; os rostos envelhecidos pelo tempo e pelo trabalho dos que não têm o mínimo para sobreviver dignamente...” (Santo Domingo, 178).

Francisco de Assis encontrou o Crucificado nos crucificados dos caminhos, nos hansenianos e nos pobres. Ele se encontrou com um crucificado histórico concreto: em 1204, deu um beijo no leproso, excluído dos excluídos. Só após isso, em 1206, é que o Crucificado de São Damião lhe falou, e esta experiência o fortaleceu ainda mais. Logo então, uma profunda e sincera com-paixão o fez mergulhar cada vez mais profundo na paixão de Cristo, na paixão dos pobres. Os estigmas da paixão antes de serem cravados em suas mãos começaram a cravar-se no seu coração.

Francisco, por inspiração divina, abraçou pobre e humildemente a cruz de Jesus e deixou-se impregnar, arrebatar e transformar totalmente por ela. Isso quer dizer que a imitação de Cristo, por parte de Francisco, não é mera repetição mecânica dos gestos exteriores de Jesus, mas é manifestação de sua profunda sintonia com a experiência originária de Jesus Cristo: o Reino de Deus. Somente quem possui o Espírito do Senhor pode observar “com simplicidade e pureza” a Regra e o Testamento de São Francisco e realizar em si mesmo, com os irmãos e irmãs, a vontade do Senhor.

No nosso Manifesto da Juventude Franciscana, dizemos no item 03: “Cremos no Cristo pobre humilde e crucificado que se identifica com os empobrecidos, marginalizados e oprimidos de nossa sociedade.” Além disso, nas Constituições Gerais da OFS, artigo 22, encontramos: “No campo da promoção humana e da justiça, as Fraternidades devem empenhar-se com iniciativas corajosas, em sintonia com a vocação franciscana e com as diretrizes da Igreja. Tomem posições claras quando a pessoa humana é ferida na sua dignidade em virtude de opressão ou indiferença, qualquer que seja sua forma. Ofereçam seu serviço fraterno às vítimas da injustiça.”

Irmãs! Irmãos! Quantos Cristos ainda teremos que descer da Cruz? Qual tem sido nossa fidelidade à vida, ação, paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo? Nossas Fraternidades caminham fiéis à pessoa, ensinamentos e proposta de Jesus, à exemplo de Francisco? Será que não estamos tentados/as com as propostas do mundo moderno individualista?

Lavar as mãos diante das injustiças, como Pilatos, ou negar o Projeto, como Pedro, é o caminho mais fácil. Seguir Jesus, como Francisco, até a Cruz, na prova maior, é o caminho da Ressurreição.

E como diz um dos cantos do Ofício Divino das Comunidades para este momento... “Agora é ficar acordado, sofrendo com ele a agonia, chamar pelo Pai, aceitando; Vai vir mais amargura, antes de romper o dia. Agora é ser preso com ele, traído, negado, açoitado, sentir a coroa de espinhos, pra servir de palhaço e depois ser condenado. Agora é subir ao Calvário com a cruz em que vai ser pregado, olhar para a mãe sofredora, perdoar todo mundo e morrer pelo pecado”.


Emanuelson Matias de Lima (Elson)
Subsecretário Nacional de Ação Evangelizadora da JUFRA do Brasil
Assessor de Arquivo e Memória da JUFRA do Brasil

Fonte: Juventude Franciscana (jufrabrasil.org)

quinta-feira, 28 de março de 2013

Lava-pés: colocar-se a serviço de modo humilde, dos mais humildes


Cidade do Vaticano - Na tarde desta Quinta-Feira Santa, Papa Francisco celebra a Santa Missa da Ceia do Senhor no Instituto Penal para Menores de Casal del Marmo. Esta Missa é caracterizada pelo rito do Lava-pés. 


Celebrando no Instituto Penal para Menores, Francisco dá assim continuidade a uma tradição que assumiu quando ainda sacerdote. Em Buenos Aires, Bergoglio costumava celebrar esta Missa em prisões ou casas para pobres e marginalizados. 

Para uma reflexão sobre o significado deste gesto, nós contatamos o Bispo responsável pela Pastoral Carcerária, Dom Pedro Luiz Stringhini, Bispo de Mogi das Cruzes, em São Paulo:

A Semana Santa é um momento tão importante na vida da Igreja, um momento tão importante para a vida dos cristãos católicos. É um retiro espiritual, como se costuma dizer. Celebramos os principais mistérios das passagens da vida do Cristo e o mistério da salvação: a paixão, a morte e a ressurreição do Senhor – o tríduo pascal é assim a maior festa litúrgica da Igreja Católica durante o ano. 

Na Quinta-feira Santa, o Evangelho traz o texto do Lava-pés, ou seja, no fundo é a Igreja querendo ensinar que quem entendeu o significado da eucaristia deixado por Jesus, memorial da Páscoa, da Nova Aliança, quem celebra a eucaristia tem que se colocar a serviço e a serviço de modo humilde, e a serviço dos humildes e dos pequenos. E aí que entra a proclamação do Evangelho de João, capítulo 13, que é o texto do lava-pés – esta passagem tão bonita de Jesus, que antes de entregar sua vida quis realizar este gesto. Gesto simples, mas ao mesmo tempo tão contundente a ponto de S. Pedro não entender. Ou seja, quem celebra a eucaristia tem que se colocar a serviço, a serviço do mais humilde.

Este ano, a Festa da Páscoa coincide com a chegada de Francisco. Este Papa que nos surpreendeu vindo da América Latina, nos surpreendeu pelo nome que escolheu – é a primeira vez que um Papa se chama Francisco, evocando a figura de S. Francisco de Assim, que mais do que ninguém foi o santo que lavou mesmo os pés: ele foi abraçar o leproso, foi ao encontro dos mais pobres. Então tudo coincide e mais ainda o fato de que o Papa Francisco escolheu lavar os pés de jovens que estão privados da liberdade, em recuperação. Isso será um gesto muito profético. Vamos aprender com tudo isso, vamos aprender com o gesto de Jesus, que se repete na Igreja, e ao qual todos nós, cristãos, somos chamados a realizar e que o Papa Francisco está evidenciando. 

E quando se trata da situação dos presos, dentro daquele espírito do Evangelho de Mateus, ‘estive preso e me visitaste’ – quando se fala desta situação, estamos diante da situação social mais grave. Porque uma coisa é socorrermos uma criança indefesa, todos nós gostamos de fazer isso, outra coisa é ir ao encontro daqueles que um dia praticaram atos contra a sociedade e que vivem numa situação muito precária, muito desafiadora.

Fonte: Rádio Vaticano

terça-feira, 26 de março de 2013

Uma Igreja pobre para os pobres

Em tempos de teologia da prosperidade, consumismo, crises econômicas aqui e ali, falar novamente dos pobres parece meio fora da ordem.

Para a Pastoral da Juventude, a opção pelos pobres nunca esteve fora da pauta. Por ser opção da Igreja, ela deve se pautar em ações. E toda ação evangelizadora concreta se dá por meio das pastorais. No entanto, os pobres e as causas da pobreza estavam ficando mais matizados nos discursos eclesiais.

Eles nunca estiveram fora da prática de Jesus, fosse estando ao lado deles para mostrar-lhes sua própria dignidade e valor, fosse estando ao lado dos ricos para que estes se convertessem a causa da justiça, como no caso de Zaqueu.

Exatamente por isto que para a prática cristã, o contrário de pobreza não é riqueza, mas justiça. A miserabilidade nasce das relações injustas que a sociedade cria e ao fazer opção pelos pobres, a Igreja quer desvelar esta realidade.

Em 16 de março de 2013, o Papa Francisco teve uma audiência com os representantes da imprensa do mundo todo que cobriram desde a renúncia de Bento XVI até os resultados do conclave e primeiros dias do novo pontificado. No discurso proferido (que pode ser lido aqui), o Papa fez a afirmação que dá título a este texto “Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres”.

Li e reli muitas afirmações e interpretações deste discurso e desta frase em particular. Há quem pense que a Igreja iria desfazer-se de todos os bens que possui para distribuí-los todos aos pobres. Há quem julgue que isto é o que deveria ser feito. Outros acham que uma “Igreja pobre” não teria recursos para ajudar quem precisa de ajuda.

São afirmações colhidas fora do contexto e daquilo que é prática histórica das comunidades cristãs, em especial aqui no continente latino-americano. Quem acha que só “rico” pode ajudar o “pobre”, tem em sua mente que este último é objeto da caridade do primeiro. Não sou estúpido ao ponto de afirmar que a caridade destes pequenos atos não seja importante. Claro que é. Ela suprime uma necessidade urgente (fome, sede, frio, doença), mas maior caridade é atacar as causas destas necessidades.

Uma Igreja pobre para os pobres não é formada somente por pessoas desprovidas de bens materiais. Afirmar isto equivaleria a dizer que só um negro poderia se engajar na causa dos negros, só mulheres na luta das mulheres, só imigrantes valeriam na busca do direito dos imigrantes. Óbvio que a dor social é mais sentida por aqueles que sofrem na pele e na história seus efeitos. Mas não são portas fechadas para aqueles que querem se solidarizar e estar ao lado na busca por justiça.

Neste sentido que entra a opção pelos pobres abraçada pela PJ e por toda a Igreja. Não são pobres genéricos, espalhados aqui ou ali. É todo um grupo de pessoas de uma realidade concreta de exclusão. “É o grito de um povo que sofre e que reclama justiça, liberdade e respeito aos direitos fundamentais dos homens e dos povos”, como lembra o documento de Puebla.

Não se trata de pobres numa fria realidade estatística. São pessoas com rostos bem definidos: crianças subnutridas, jovens sem perspectivas, indígenas, camponeses sem terra, operários, desempregados, subempregados, idosos, ribeirinhos, dependentes de drogas, portadores de deficiências, entre tantos outros. 

São estas pessoas aquelas que o Papa Francisco aponta na sua frase-desejo que intitula este texto. Através destas pessoas pode-se fazer a experiência do Reino de Deus. E, como diz o Pe. João Batista Libânio, este Reino exige de nós “esperança, práticas de caridade libertadoras, decisões urgentes e inadiáveis”. Ao mesmo tempo em que o pobre é amado de Deus e destinatário prioritário do Seu Reino, ele é também fruto da injustiça, do pecado social e da falta de fraternidade. É a experiência do Reinado de Deus. É o já e o ainda não. É o “Já”, na presença do Deus da Vida que caminha ao lado dos que sofrem e o “Ainda não”, porque eles também são sinal da ausência da fraternidade e da justiça.

Uma Igreja pobre para os pobres é presente pelo exemplo de Jesus que se fez pobre entre os pobres. Ou como nos ensina São Paulo que pede que tenhamos “os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo: Ele tinha a condição divina, mas não se apegou a sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,5-7). Que nossa ação pastoral seja de serviço, serviço pleno e em favor de quem mais precisa.

Fonte: E por falar em Pastoral... (pejotando.blogspot.com)


segunda-feira, 25 de março de 2013

Segurança Pública: um novo modelo é preciso!

O Brasil tem uma população jovem aproximadamente de 50 milhões de pessoas. Ao ano, cerca de 30.000 são mortas em razão de homicídios. Este número representa mais da metade dos homicídios no País (53%). Cerca de 75% destas vítimas são jovens negros, e a maioria delas é de homens (91%), com alta incidência de mortos com idades de 20 a 25 anos.
De acordo com o Mapa da Violência 2012, produzido pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos – CEBELA, o Brasil é um dos países que apresenta maiores índices de homicídios no mundo. Mesmo somando países com conflitos armados, como por exemplo, Iraque, Sudão, Afeganistão, Israel, Palestina, Paquistão, etc, não superam os números de mortes ocorridas no Brasil no período de 2004 a 2007.
Por trás de toda essa violência existem diversas causas. A formação histórica brasileira construída a partir das desigualdades sociais, econômicas e culturais são uma delas. Entretanto, mesmo com alguns avanços no enfrentamento dessas desigualdades percebemos que a violência continua presente em nosso cotidiano.
Infelizmente as trajetórias interrompidas de milhares de jovens no Brasil ainda não foram suficientes para que o Estado adote medidas efetivas e urgentes para salvar a vida da nossa juventude.  Prova disso é que mesmo diante deste lastimável quadro carecemos de uma Política Nacional de Segurança Pública.
A segurança pública no Brasil apresenta resquícios dos tempos de chumbo, sendo pautada pelo autoritarismo e pela dura repressão a um suposto inimigo interno que hoje é representado pela juventude marginalizada. Além disso, ela ainda é tratada na maioria das vezes como um assunto exclusivo das policias, afastando o cidadão/a de qualquer possibilidade de participação em sua elaboração.
Não podemos admitir que um debate tão caro para população, sobretudo para a juventude, seja tratado por poucos. O Sistema de Justiça e Segurança precisa de uma reforma urgente de modo a estabelecer outros princípios que estejam fundamentados na garantia da vida de todos/as e não na defesa do patrimônio de poucos.
Por isso, precisamos impulsionar uma ampla discussão com vista à construção de uma Política Nacional de Segurança centrada no respeito aos direitos humanos e que esteja em consonância com os preceitos de um Estado verdadeiramente democrático e de direito.
Com segurança, A JUVENTUDE QUER VIVER!
Fonte: A Juventude Quer Viver! (pj.org.br)

domingo, 24 de março de 2013

34 anos do martírio de Dom Oscar Romero


Hoje, 24 de março de 2013, fazem 34 anos do martírio de Dom Oscar Romero. Lutava contra a tirania da ditadura militar em seu país, El Salvador. Foi morto a mando da ditadura salvadorenha e da CIA, com um tiro certeiro no coração, quando ergueu o Cálice Sagrado para a consagração do Corpo e Sangue de Jesus Cristo, diante dos fiéis na capela do Hospital da Divina Providência. O mandante do crime, major Roberto D’Aubuisson, é reconhecido como responsável, mas nunca foi processado..

Acredita-se que o que motivou de vez o assassinato dele foi sua homilia do dia 23 de março de 1980, um dia antes de sua morte, onde bradou: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (…). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a repressão!”
“Dom Romero foi um bispo exemplar, porque foi um bispo dos pobres em um continente que carrega tão cruelmente a marca da pobreza das grandes maiorias, enxertou-se entre eles, defendeu sua causa e sofreu a mesma sorte deles: a perseguição e o martírio. Dom Romero é o símbolo de toda uma Igreja e de um continente latino-americanos, verdadeiro servo sofredor de Yahwé, que carrega o pecado, a injustiça e a morte de nosso continente. Embora, às vezes, o pressentíamos, seu assassinato não nos surpreendeu; seu destino não podia ser outro, pois ele foi fiel a Jesus e se inseriu de verdade na dor de nossos povos”, disse Dom Samuel Ruiz Garcia, bispo emérito de San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, México.
Fonte: terrasemmales.com.br

sábado, 23 de março de 2013

Carta da Pastoral da Juventude à Caju Assessoria


“A história ninguém deterá, é rio que corre pro mar, ninguém vai nos calar, nos calar!”
(Zé Vicente)

Nós, jovens e adultos, membros da Coordenação Nacional e Comissão Nacional de Assessores/as da Pastoral da Juventude, reunidos em São Leopoldo/RS, por ocasião da Abertura do Ano Celebrativo dos 40 anos da PJ, queremos expor a nossa preocupação e indignação em relação à intervenção realizada na Casa da Juventude Pe. Burnier (CAJU), em Goiânia/GO.
A CAJU, em sua trajetória, foi referência nacional e latino-americana em formação, assessoria,pesquisa e pós-graduação em juventude. Também contribuiu significativamente por meio da produção de vários subsídios, sendo estes ferramentas importantes para as lideranças dos grupos de base. Exerceu um papel importantíssimo na evangelização, conscientização e promoção de direitos humanos. Foi uma verdadeira casa para os/as jovens da Pastoral da Juventude no Brasil. Espaço que se configurou muitas vezes como um ambiente de partilha e celebração da vida. Aprendemos a cultivar nossa juventude e espiritualidade nos Cursos, Encontros e Formações promovidos pela CAJU, inspirados pela mística inaciana, pela opção preferencial aos pobres e pelo exemplo dos colaboradores da casa. Aprendermos na prática, junto aos/as colaboradores/as, o seguimento profético a Jesus Cristo, na luta pelos direitos da juventude, no acolhimento e diálogo com a pluralidade existente em nossa sociedade.
Nos últimos meses, a nova diretoria da CAJU simplesmente cancelou todos os projetos pastorais, alegando problemas financeiros e uma reformulação nos princípios e objetivos da Casa. Ficamos surpresos com esse fato acontecer depois de todos os projetos serem aprovados em assembleia. Lamentamos de forma especial o cancelamento das atividades pastorais. Como se não bastasse, todos/as os/as colaboradores/as dos respectivos projetos foram sumariamente desligados. Uma decisão arbitrária que simplesmente passou por cima de anos de processos de discernimentos, diálogos e vivência comunitária, tão caros para nós.
Essa intervenção acontece em 2013, ano em que a atenção da Igreja do Brasil se volta para os/as jovens com a realização da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro e a realização da Campanha da Fraternidade promovida pela CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com o tema Fraternidade e Juventude. A CF propõe o objetivo de acolher os/as jovens no contexto das mudanças de nossa época. A atual situação da Casa da Juventude se torna uma de nossas sombras, diante de nossa missão e chamado de seguimento a pessoa de Jesus Cristo.
Comprometidos com a vida da juventude, a pergunta que nos inquieta é justamente: “o quanto a perda desse espaço pode prejudicar as nossas lutas e conquistas da juventude e enfraquecer a nossa caminhada?” Assim para nós participantes da Pastoral da Juventude, das mais diversas realidades empobrecidas vemos que mais uma porta se fecha. A juventude perdeu mais um espaço! Como afirmar que a opção é pelos jovens, cancelando os projetos pastorais e de relevância de um dos centros juvenis com maior reconhecimento da América Latina?
Queremos abraçar a todos/as nossos/as companheiros/as, colaboradores/as da casa que foram desligados/as. Queremos expressar nossos mais sinceros e tristes sentimentos com nossos amigos/as, devido aos tristes acontecimentos.
Cremos na Jerusalém da ressurreição. O que aprendemos com os processos vividos na CAJU está em nós. Acreditamos em uma Igreja que acolha de verdade a juventude.
Apoiamos a força e união do grupo de pessoas, proféticas, sonhadoras, que se reúne no desejo de continuar a missão assumida há mais de duas décadas, pela até então Casa da Juventude Padre Burnier, agora com uma nova configuração, a Caju Assessoria – Centro de Assessoria em Juventude. Nosso coração se encheu de alegria em saber que no último dia 9 de março, foi marcado pela ressurreição dos princípios iniciais da CAJU com a realização da Assembleia de Fundação do Centro de Assessoria em Juventude- Caju Assessoria.
Desde já manifestamos o nosso desejo e compromisso de continuarmos em parceria, não só com aCaju Assessoria, mas com toda a Rede Brasileira de Centros e Institutos de Juventude, agradecendo a participação efetiva em nossa história que completa seus 40 anos com muitos desafios e sonhos que juntos construímos.
Sigamos na construção da Civilização do Amor, na certeza de que outro mundo é possível.

São Leopoldo/RS, 22 de março de 2013.

Coordenação Nacional e
Comissão Nacional de Assessores/as
Pastoral da Juventude
Autor/Fonte: Coordenação/Comissão Nacional de Assessores da PJ

quarta-feira, 20 de março de 2013

A questão da idade no Estatuto da Juventude

* Por Severine Macedo e Bruno Elias

O projeto de lei do Estatuto da Juventude (PLC 98/2011) inaugura um momento decisivo de sua tramitação no Congresso Nacional. Em debate no legislativo desde 2004, o projeto de lei que trata dos direitos da juventude brasileira está na ordem do dia das comissões do Senado.

Dispostos a não comemorar o aniversário de 10 anos de tramitação do projeto, a Secretaria Nacional de Juventude e o Conjuve têm reivindicado sua aprovação como uma das prioridades do ano de 2013. Articulados nas ruas e nas redes, as organizações e movimento sociais também incluíram a aprovação do Estatuto entre as reivindicações da jornada de lutas da juventude, a ser realizada nos próximos dias em todo o Brasil.

O Estatuto da Juventude será uma inédita declaração de direitos singulares e universais dos jovens. Além disso, apontará as diretrizes e princípios das políticas públicas de juventude e a identificação da população que será contemplada como jovem no país. Aliás, é neste último ponto que reside uma das polêmicas em torno do projeto, que é definir qual faixa de idade deveria ser compreendida pelo Estatuto da Juventude.

Ao longo destes últimos nove anos em que o Estatuto da Juventude tramitou na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, firmou-se um entendimento de que a população jovem compreenderia as pessoas com idade de 15 a 29 anos. Compreensão semelhante orientou o governo federal a sancionar a Lei 11.129/2005, que criou a Secretaria e o Conselho Nacional de Juventude, com responsabilidades sobre as políticas públicas voltadas “aos jovens na faixa etária entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos, ressalvado o disposto na Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente.”

Nos debates recentes sobre o Estatuto da Juventude, a questão da idade despertou polêmica sob dois aspectos. Por um lado, questionava-se o limite de idade até 29 anos, considerado extenso por alguns. Em resposta a tais observações, verificou-se que esta compreensão ampliada da juventude se justifica por fenômenos sociais contemporâneos que incidem no alongamento da condição juvenil, em parte pela necessidade de estender o tempo de escolaridade e formação profissional, mas também pelas dificuldades de inserção da atual geração de jovens no mundo do trabalho e em outras dimensões da vida adulta.

Por outro lado, o reconhecimento dos indivíduos de 15 a 18 anos como jovens pelo Estatuto da Juventude tem despertado dúvidas e preocupações no campo da política da criança e do adolescente, que teme pela sobreposição entre esta e a política de juventude e por retrocessos no debate sobre a maioridade penal.

Para tentar dirimir essa preocupação, a SNJ e o Conselho Nacional de Juventude têm apresentado nos seus documentos uma proposta de emenda ao projeto do Estatuto da Juventude, que dá maior nitidez ao alcance da lei, deixando expresso que os direitos e políticas de juventude são complementares ao disposto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Caso esta proposta seja acolhida, o Estatuto da Juventude teria tal ressalva desde o seu primeiro artigo:


“Art. 1º (...)

§ 1º Para os efeitos desta Lei, são consideradas jovens as pessoas com idade entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos.

§ 2º Os direitos assegurados aos jovens nesta Lei serão interpretados de forma complementar e nunca em prejuízo do disposto para os adolescentes na Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 – Estatuto da Criança e Adolescente.”


A proposta de emenda apresentada também é justificada pelo foco diferenciado que tem o Estatuto da Juventude em relação aos direitos e políticas públicas da criança e do adolescente. Enquanto a abordagem do ECA tem como diretriz a “doutrina da proteção integral”, o princípio que orientaria o Estatuto da Juventude seria o da promoção da autonomia e emancipação do jovem.

Esta diversidade conceitual e o caráter complementar entre os dois Estatutos também podem ser observados em um exercício de comparação entre os direitos já garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e a declaração de direitos proposta pelas emendas da Secretaria e do Conselho Nacional de Juventude.

No artigo 4º do ECA, estão garantidos como direitos das crianças e adolescentes os direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Nas propostas da SNJ e do Conjuve, por sua vez, constariam no Estatuto da Juventude os seguintes direitos singulares e universais: direito à participação; à educação; à profissionalização, ao trabalho e à renda; à diversidade e à igualdade; à saúde; à cultura; à comunicação e à liberdade de expressão; ao desporto e ao lazer; à sustentabilidade e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado; ao território e à mobilidade; à segurança pública e ao acesso à justiça.

Em relação a eventuais repercussões no debate sobre a maioridade penal, é preciso registrar que além da ressalva de que os direitos da juventude não implicariam em prejuízo ao ECA, o PLC 98/2011 não dispõe sobre matéria penal em nenhum de seus artigos. De igual maneira, tanto a garantia constitucional de inimputabilidade aos menores de 18 anos quanto as medidas socioeducativas previstas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, não são tratadas pelo Estatuto da Juventude.

Cabe registrar ainda que na aplicação concreta das políticas públicas de juventude e da criança e do adolescente, a coexistência entre ambas já ocorre sem sobreposições ou prejuízo na atuação dos órgãos gestores e de controle social. No âmbito dos municípios, dos estados e da União, tanto as áreas de governo quanto os Conselhos de Direitos e os Conselhos Tutelares convivem com responsabilidades e atribuições diferenciadas em relação aos Conselhos de Juventude.

A partir de tal entendimento, os direitos da juventude não devem ser vistos como sobrepostos aos direitos da criança e adolescente. Em especial os jovens com idade entre 15 e 18 anos, vulneráveis por uma série de determinantes sociais, precisam mais do que ninguém da complementaridade das duas dimensões de direitos: tanto os direitos voltados a proteção integral, garantidos pelo ECA, quanto os direitos de participação, autonomia e emancipação, previstos pelo Estatuto da Juventude.

Ao tratarmos de direitos relacionados a fases da vida, devemos considerar que a juventude e a adolescência são construções históricas e sociais referenciadas em cada época e cultura. Embora os limites etários sejam de grande utilidade para o foco das políticas públicas, na vida concreta de adolescentes e jovens estas fronteiras não são tão rígidas ou homogêneas.

Na prática, a legislação brasileira já reconhece a complexidade da fase dos 15 aos 18 anos para a trajetória do indivíduo. É neste momento de transição entre o final da adolescência e os primeiros anos da juventude que se situa aos 16 anos a idade mínima para o trabalho (salvo em condição de aprendiz, a partir dos 14 anos); em geral, é dos 15 aos 17 anos que se projeta a conclusão regular da Educação Básica; a Constituição Federal permite o voto facultativo aos 16 anos e a partir dos 18, o jovem alcança a maioridade civil e penal.

Com tantas questões envolvidas, a leitura desta breve polêmica não deve ser entendida como uma disputa entre os defensores dos direitos da criança e dos adolescentes, de um lado, e o campo das políticas de juventude, do outro. Ao contrário, trata-se de um debate qualificado entre ativistas, conselhos, movimentos sociais e gestores públicos que estão historicamente unidos na defesa dos direitos das novas gerações no Brasil.

A riqueza desta discussão tem evidenciado o compromisso de setores representativos da sociedade com a ampliação de direitos dos adolescentes e jovens, a partir de pontos convergentes como a plena aplicação do ECA, o aperfeiçoamento e aprovação do Estatuto da Juventude ainda no ano de 2013 e a posição contrária à redução da maioridade penal.

Reconhecendo as políticas de juventude como políticas de Estado, para além da transitoriedade dos governos, o Estatuto da Juventude também completaria, ao lado do Estatuto da Criança e Adolescente e do Estatuto do Idoso, o primeiro ciclo de leis que garantem direitos geracionais no Brasil. Portanto, a mobilização da sociedade e do Congresso Nacional para sua aprovação são passos ousados de uma caminhada ainda maior pela garantia de direitos no país.

Severine Macedo é Secretária Nacional de Juventude da Secretaria-Geral da Presidência da República
Bruno Elias é secretário-executivo do Conselho Nacional de Juventude

Fonte: Pastoral da Juventude Nacional (pj.org.br)

terça-feira, 19 de março de 2013

Manaus é eleita sede do 11º Encontro Nacional da Pastoral da Juventude (ENPJ)



As terras amazonenses receberão a juventude brasileira para o 11º Encontro Nacional da Pastoral da Juventude (ENPJ) na cidade de Manaus. A definição foi feita durante a última reunião da Coordenação Nacional e Comissão Nacional de Assessores da Pastoral da Juventude (PJ), realizada em São Leopoldo/RS, do dia 7 a 10 de março.

A Arquidiocese de Manaus apresentou o projeto para a acolhida e organização da atividade que deverá acontecer em janeiro de 2015, reunindo centenas de jovens e assessores oriundos de todas as regiões brasileiras. “A Coordenação Regional e Arquidiocesana da PJ sonharam juntas a vontade de sediar o 11º ENPJ e acreditam que esse acontecimento é de pertença de todo regional, não somente dos jovens da PJ, mas de toda a Igreja. E é dessa forma que estamos refletindo e dialogando, na certeza de que o grande puxirum que fará acontecer o ENPJ aqui nas terras sagradas dos Manaós com frutos, flores, peixes e farinha”, afirma a carta de apresentação da candidatura, assinada pela Coordenação Arquidiocesana da PJ de Manaus e do Regional Norte 1.
“A Igreja da Amazônia tem muito o que nos ensinar. Ela carrega um poço de mística da qual necessitamos beber”, afirma a jovem Janaina Dantas Sales, Coordenadora Nacional da PJ pelo regional Nordeste 2. Vinícius Borges, membro da coordenação nacional da PJ pelo Regional Leste 2, reitera a importância da energia da Amazônia para alimentar a fé: “estar na Amazônia para o décimo primeiro encontro da PJ é momento de reafirmar nosso compromisso com as causas que acreditamos, especialmente a natureza, que sofre com a violência, assim como muitos de nossos jovens”.
O projeto conta com apoio do Presidente da CNBB do Regional Norte 1, Dom Roque Paloschi, bispo da Diocese de Roraima; do Secretário Executivo da CNBB do regional Norte 1, Pe. Zenildo Lima; e do Arcebispo Metropolitano de Manaus, Dom Sergio Castriani. Segundo Dom Sergio, a “juventude é sempre importante e deve ser prioridade. Juventude é futuro, mas é, sobretudo, o presente da sociedade e da Igreja.”
Encontros Nacionais
A PJ realiza seus Encontros Nacionais a cada três anos, com representação de jovens de todas as dioceses em que houver trabalho articulado de PJ. É um espaço para troca de experiências, reflexão da caminhada e apontamentos de pistas para a ação. Sua preparação e animação são de responsabilidade da Coordenação Nacional de Jovens e da Comissão Nacional de Assessores.

A edição anterior (décima) da atividade aconteceu no interior do Paraná, na cidade de Maringá, com o tema “Somos Igreja Jovem” e contou com a presença de mais de 800 jovens e assessores de todas as regiões brasileiras.
Fonte: Pastoral da Juventude Nacional (pj.org.br)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Escola da Juventude completa 10 anos na Arquidiocese de Feira de Santana



Entre os dias 15 e 17 de março, estiveram reunidos quase 60 jovens de diversas paróquias da Arquidiocese de Feira de Santana, para a realização da 1ª Etapa da Escola da Juventude Dom Hélder Câmara. A formação foi realizada na Chácara Santo Inácio, de propriedade dos Jesuítas residentes em nossa Arquidiocese. Foram momentos fortes de mística, formação e partilha. A EJ se iniciou em 2003, por se verificar a necessidade de uma formação mais concreta e enraizada na perspectiva juvenil de nossa terra. Portanto celebramos um ano jubilar da EJ, no mesmo período da Pastoral da Juventude Nacional, que festeja 40 anos de caminhada.

A programação começou na sexta à noite, com a acolhida e de uma dinâmica de apresentação. Logo após foi celebrada a Via Sacra dos Mártires da Caminhada, momento forte para relembrar neste tempo de quaresma o martírio de Jesus e de muitos de seus seguidores que ainda são perseguidos. 

No sábado de manhã tivemos a oração da manhã e logo após tivemos a assessoria da Irmã Karla, que falou sobre Autoconhecimento e História pessoal. No sábado pela tarde a Irmã Flor contribuiu com o tema Missão da Igreja, e nos recordou parte de sua história de Missão na Amazônia. Ao entardecer celebramos a Palavra com a linda juventude presente. Logo após a Celebração, tivemos momentos lúdicos, em que nos visitaram muitos amigos jesuítas e o padre Cristiano Fechine que acompanha a Comissão da JMJ na Arquidiocese. 

 
No domingo pela manhã rezamos o Oficio Divino da Juventude, e depois contamos com a assessoria de Johnny Santos, pjoteiro natural da Arquidiocese de São Paulo, que está morando em Santo Estevão. Ele falou sobre Antigo Testamento, focando principalmente os Profetas. Por fim, ficou a saudade deste fim de semana tão proveitoso para os representantes de nossos grupos de base, e a alegria de saber que em maio tem a 2ª etapa que abordará Afetividade e Sexualidade, Novo Testamento e Missão da PJ.

Erik Nascimento
Coordenação da Pastoral da Juventude - Arquidiocese de Feira


quinta-feira, 14 de março de 2013

Francisco, um símbolo da paz

Escolha de nome pelo novo Papa reflete opção pela vida, pela relação direta com o povo de Deus

A escolha do sucessor de Bento XVI na tarde desta quarta-feira (13) é sinal de esperança e alimento para a fé e ação dos católicos, em especial dos latinoamericanos. Pela primeira vez na história da Igreja Católica, um Papa vem da América Latina. Pela primeira vez ele escolhe ser chamado de Francisco. O eleito, em meio a muita expectativa e também especulações, é o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio.
Em nota, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), diz que o Pontífice é nascido no Continente da Esperança e que traz para o Ministério Petrino a experiência evangelizadora da Igreja latino-americana e caribenha.  “Estamos feliz, satisfeitos com a escolha de um Papa latinoamericano, o que vem mostrar que a Igreja se abre e está voltada para este continente. Ele reflete nossa forma de evangelização, numa aproximação com o povo de Deus. Cremos na mensagem do Evangelho, no Reino de Deus, na transformação do mundo”, afirmou em coletiva à imprensa, dom Leonardo Ulrich Steiner, Secretário Geral da CNBB.
Para Pedro Gontijo, secretário-executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, a escolha de um Papa latinoamericano foi uma boa surpresa quando toda a mídia apontava para outros nomes. De acordo com ele, isso é um sinal de que a lógica da Igreja não segue a lógica das disputas políticas, muitas vezes, encabeçada pela própria mídia. “Aqui tem uma lógica e o horizonte da fé, de serviço, que muitas vezes é estranha para uma sociedade como a nossa”, declarou. A escolha do nome Francisco diz muito. Fala da relação de um homem simples, que em sua rotina diária anda de bicicleta pelas ruas de Buenos Aires, faz sua própria comida e, em sintonia com sua comunidade, utiliza o transporte público e demais serviços da capital argentina. Seu conhecimento e simplicidade revelam que o Papa Francisco I será um grande pastor. Ele tem empatia com o povo.

O nome escolhido ainda pode remeter a história de muitos Franciscos, entre os quais São Francisco Sales, São Francisco de Pádua e, de forma especial, São Francisco de Assis, que fazendo opção pelos pobres refletiu em sua época um período de renovação da Igreja. São Francisco viveu entre os mais pobres dos pobres e transformou a relação dos homens com a natureza, ao amar todas as criaturas chamando-as de irmãos. Francisco é, pois um símbolo do Bem Viver com a natureza.
“Ao novo Papa não faltará a assistência e a força do Espírito Santo para cumprir esta missão e aprofundar na Igreja o dom do diálogo, em uma sociedade marcada pela pluralidade e pela diversidade, e o compromisso com a vida de todos, a partir dos mais pobres, como nos ensina Jesus Cristo”, afirma CNBB em sua saudação ao novo Papa.
Esse nome Francisco é especialmente significativo numa época em que a humanidade vive uma crise em sua relação com a natureza. Quando tantos fenômenos ambientais atingem as populações e as discussões a cerca do meio ambiente se tornam urgentes.
Pedro Gontijo ainda relaciona a escolha ao Rio São Francisco, espaço de vida e comunhão de tantas gentes. “Desejamos que assim como nós temos o Rio São Francisco, que integra, que traz vida e alimenta tantas histórias, que o nosso Papa Francisco tenha um papel primordial junto ao povo de Deus e que alimente a vida da Igreja por onde passar”, disse.
Por: Cleymenne Cerqueira
Fonte: Comissão Brasileira de Justiça e Paz