sexta-feira, 29 de março de 2013

A Paixão do Senhor, a Páscoa da Cruz



“Tão desfigurado estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano.” (Isaías 52, 14b)

Sexta-feira Santa. Cristãos e cristãs de todo o mundo, unimos nossos passos à caminhada da paixão do Senhor até sua morte na cruz. Esta é a parte mais difícil da missão: a prova maior, “a hora”, o martyria (testemunho). Mas não há verdadeira missão a serviço do Reino sem confronto com tudo aquilo que vai contra a proposta de Jesus de Nazaré. Com Jesus na cruz, entregamos nas mãos do Pai o grito de todos os condenados e condenadas à morte. Contemplando e adorando o Crucificado, elevamos nossa oração por toda a humanidade resgatada pelo seu sangue redentor. Comungando de seu corpo, passamos do pecado para a vida que jorra da cruz e recebemos força para, no dia-a-dia, vencer a morte e viver a alegria da ressurreição.

Todos e todas nós, que nos dizemos cristãos e cristãs, somos discípulos e discípulas de um prisioneiro político. Para levar o inocente, o servo sofredor, à cadeia e à morte, até partidos inimigos fizeram as pazes. Jesus, preso, torturado e assassinado na cruz, padeceu sob dois processos. Sua mensagem era fermento na massa e questionava as estruturas sócio-econômicas, pois seu reinado é reinado da verdade, onde a exploração dá lugar à partilha, e a opressão dá lugar à fraternidade, onde a vida está em primeiro lugar. “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundancia” (Jo 10, 10b). O seguimento de Jesus tem dois pólos de tensão: a memória viva e atuante do passado e a resposta corajosa aos desafios atuais.

Ora, o modelo econômico atual cria milhares e milhares de excluídos e excluídas, povos inteiros crucificados, multidão de mulheres e homens, jovens e crianças, que vivem em condições infra-humanas: camponeses sem terra, famílias amontoadas em favelas, trabalhadores/as explorados/as com salários de fome, negros e índios marginalizados, sofredores de rua atirados nas sarjetas, todos/as na linha da exclusão, porque não conseguem produzir dentro da ótica capitalista.

Os Bispos da América Latina e do Caribe, em 1992, na Conferência Episcopal de Santo Domingo nos pediam para enxergar o rosto de Cristo no rosto dos sofredores e sofredoras de hoje. “(...) os rostos desfigurados pela fome, conseqüência da inflação, da dívida externa e das injustiças sociais; os rostos desiludidos pelos políticos que prometem, mas não cumprem; os rostos humilhados por causa de sua própria cultura, que não é respeitada, quando não desprezada; os rostos angustiados dos menores abandonados que caminham por nossas ruas e dormem sob nossas pontes; os rostos sofridos das mulheres humilhadas e desprezadas; os rostos cansados dos migrantes que não encontram digna acolhida; os rostos envelhecidos pelo tempo e pelo trabalho dos que não têm o mínimo para sobreviver dignamente...” (Santo Domingo, 178).

Francisco de Assis encontrou o Crucificado nos crucificados dos caminhos, nos hansenianos e nos pobres. Ele se encontrou com um crucificado histórico concreto: em 1204, deu um beijo no leproso, excluído dos excluídos. Só após isso, em 1206, é que o Crucificado de São Damião lhe falou, e esta experiência o fortaleceu ainda mais. Logo então, uma profunda e sincera com-paixão o fez mergulhar cada vez mais profundo na paixão de Cristo, na paixão dos pobres. Os estigmas da paixão antes de serem cravados em suas mãos começaram a cravar-se no seu coração.

Francisco, por inspiração divina, abraçou pobre e humildemente a cruz de Jesus e deixou-se impregnar, arrebatar e transformar totalmente por ela. Isso quer dizer que a imitação de Cristo, por parte de Francisco, não é mera repetição mecânica dos gestos exteriores de Jesus, mas é manifestação de sua profunda sintonia com a experiência originária de Jesus Cristo: o Reino de Deus. Somente quem possui o Espírito do Senhor pode observar “com simplicidade e pureza” a Regra e o Testamento de São Francisco e realizar em si mesmo, com os irmãos e irmãs, a vontade do Senhor.

No nosso Manifesto da Juventude Franciscana, dizemos no item 03: “Cremos no Cristo pobre humilde e crucificado que se identifica com os empobrecidos, marginalizados e oprimidos de nossa sociedade.” Além disso, nas Constituições Gerais da OFS, artigo 22, encontramos: “No campo da promoção humana e da justiça, as Fraternidades devem empenhar-se com iniciativas corajosas, em sintonia com a vocação franciscana e com as diretrizes da Igreja. Tomem posições claras quando a pessoa humana é ferida na sua dignidade em virtude de opressão ou indiferença, qualquer que seja sua forma. Ofereçam seu serviço fraterno às vítimas da injustiça.”

Irmãs! Irmãos! Quantos Cristos ainda teremos que descer da Cruz? Qual tem sido nossa fidelidade à vida, ação, paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo? Nossas Fraternidades caminham fiéis à pessoa, ensinamentos e proposta de Jesus, à exemplo de Francisco? Será que não estamos tentados/as com as propostas do mundo moderno individualista?

Lavar as mãos diante das injustiças, como Pilatos, ou negar o Projeto, como Pedro, é o caminho mais fácil. Seguir Jesus, como Francisco, até a Cruz, na prova maior, é o caminho da Ressurreição.

E como diz um dos cantos do Ofício Divino das Comunidades para este momento... “Agora é ficar acordado, sofrendo com ele a agonia, chamar pelo Pai, aceitando; Vai vir mais amargura, antes de romper o dia. Agora é ser preso com ele, traído, negado, açoitado, sentir a coroa de espinhos, pra servir de palhaço e depois ser condenado. Agora é subir ao Calvário com a cruz em que vai ser pregado, olhar para a mãe sofredora, perdoar todo mundo e morrer pelo pecado”.


Emanuelson Matias de Lima (Elson)
Subsecretário Nacional de Ação Evangelizadora da JUFRA do Brasil
Assessor de Arquivo e Memória da JUFRA do Brasil

Fonte: Juventude Franciscana (jufrabrasil.org)

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