sábado, 3 de janeiro de 2015

Jesus é luz para todos - os Magos do Oriente (Mt 2,1-12)




O relato da visita dos Magos do Oriente faz parte do Evangelho da Infância de Jesus segundo Mateus (Mt 1-2). Mais do que informar dados biográficos, essas narrativas querem fazer uma profunda reflexão teológica para compreender a vida de Jesus e servir de luz na caminhada das comunidades daquele tempo e ainda hoje. Aproximemo-nos ao texto em três momentos.

1. Jesus atualiza a memória profética
Numa perspectiva, percebemos como a comunidade de Mateus quer mostrar como em Jesus se cumpre a esperança de seu povo. Por isso, já situara sua origem humana (Mt 1,1-17) e divina (Mt 1,18-25), conforme tinha dito o profeta Isaías (Mt 1,22-23; Is 7,14). Em nosso relato, mais elementos vêm confirmar essa perspectiva da esperança profética.
estrela esperada, que sairia da linhagem do pai Jacó (Nm 24,17), é Jesus de Nazaré, descendente de Davi, outra estrela da estirpe de Jacó. Essa estrela é a verdadeira luz para todos os povos, é o “sol da justiça”, anunciado pelo profeta Malaquias (Ml 3,20). Davi é da tribo de Judá e Belém é sua aldeia de origem. Por isso, os autores deste relato fazem memória da esperança do profeta Miquéias (Mq 5,1-3), que não acreditava mais nas autoridades de Jerusalém, a capital, mas em um governante que viria desde a periferia, como Davi, quando era um pobre pastor de ovelhas antes de se tornar rei em Hebron e, depois, também em Jerusalém.
Outro aspecto dessa memória da esperança do povo é o fato de lembrar vários textos que anunciam a vinda do rei justo para todos os povos, enquanto do Oriente e do Ocidente eles viriam trazendo-lhe presentes (Sl 72,10-15; Is 49,23; 60,5-6). Os presentes anunciam que Jesus é rei (ouro) divino (incenso), que veio trazer libertação para muitos. Por isso, é uma ameaça para outros, que o matam (a mirra era usada nos sepultamentos – Jo 19,39-40)
2. A estrela do rei que vem da periferia
Em outra perspectiva, convém identificar as figuras de Herodes, dos sumos sacerdotes e dos escribas do povo.
Em 37 aC, Herodes Magno foi proclamado, por Roma, rei sobre toda a Palestina com o título de “rei sócio e amigo do povo romano”. Esse título nos mostra que Herodes representava, de fato, os interesses do imperador na região e cobrava os impostos para o império, reprimindo toda e qualquer resistência. De fato, era um poder dependente e subserviente aos interesses do império colonialista. Morreu no ano 4 aC.
Os sumos sacerdotes eram o grupo dos sacerdotes ricos e, junto com os escribas, representavam o poder religioso judaico. Os escribas, também conhecidos por legistas ou doutores da lei, eram os intérpretes das Escrituras. Isso lhes dava prestígio e influência em meio ao povo. Junto com os grandes sacerdotes e os anciãos (representantes dos bem situados economicamente), os escribas faziam parte do Sinédrio ou Grande Conselho. O Sinédrio era a autoridade máxima dos judeus e foi nele que se decidiu a morte de Jesus (Jo 11,45-54). Da mesma forma como Herodes, também os sumos sacerdotes, chefes do Sinédrio, eram poder dependente de Roma, uma vez que, no tempo de Jesus, eram nomeados pelos interventores romanos, os procuradores.
É importante que tenhamos clareza sobre isso, a fim de entender o que a comunidade de Mateus nos quis dizer em nosso texto. Não é por acaso que Herodes (poder político) e cidadãos de Jerusalém vissem seus privilégios ameaçados com o novo projeto de vida trazido por Jesus, o rei justo que nasce para todas as nações a partir de uma casa da periferia. É por isso que Herodes busca, através da mentira, enganar os magos a fim de colocar em prática seu plano perverso de matar o Messias (Mt 2,13). E também não é por acaso que grandes sacerdotes e escribas (autoridades religiosas) se aliem ao poder político na identificação do lugar onde devia nascer Jesus, pois percebiam que, há séculos, sua religião oficial deixara de brilhar como luz profética na defesa da vida, do amor e da liberdade.
Agora, Jesus é a estrela da justiça que brilha para a vida de todos os povos. Sua luz não é perceptível em Jerusalém, o centro do poder religioso judaico e dependente dos interesses romanos. Por isso, sua estrela não é visível aos magos. Sua luz vem da periferia, de Belém, que significa “casa do pão”. O encontro com o Deus Emanuel acontece lá onde está quem não tem vez nem voz nos centros de poder, acontece na periferia. E mais. É significativo que Jesus nasce na casa do pão. É que pão repartido é o coração de sua boa-nova. Cotidianamente, promove a partilha do pão ao redor da mesa ou em regiões desérticas. Não é por acaso que colocou o pedido pelo pão no centro dos assuntos preferências de suas conversas com o Pai. E nos pediu que os mesmos assuntos fossem também o conteúdo básico de nossa busca de intimidade com o Pai (Mt 6,9-13; Lc 11,2-4). Por fim, deixa-nos o gesto da partilha do pão como o maior sinal de sua presença entre nós (Mt 26,26-29).
3. Nos magos, os povos acolhem o messias
O evangelho segundo Mateus é o único a relatar a vinda dos sábios do Oriente. Aqui, oriente não é um lugar determinado, mas é uma referência ao lado em que nasce o sol, símbolo da luz e da vida, tal como o anjo que vem do nascente e anuncia a marca do Deus vivo em todos os seus servos (Ap 7,2-3). Nos magos, os povos acolhem o messias, que se manifesta a todas as nações.
A este texto do evangelho da infância, foram acrescentadas, pela tradição, inúmeras lendas. Um delas afirma que os magos teriam vindo da Pérsia, por ser uma cultura versada na astrologia. Outra fixa o número de magos. Seriam três. Esse número é deduzido da quantidade de presentes dados ao menino, como gesto de solidariedade para com a criança pobre que não nasce em berço de ouro. No entanto, o texto não afirma quantos eram os magos.
O texto também não diz que eles eram reis. Aliás, o rei era quem buscava matar a criança recém-nascida. As informações sobre os magos enquanto “reis”, com “nomes” e “cores” são inseguras. Alguns atribuem a São Leão Magno (papa de 440 a 461) o título de “reis” para os magos. Isso se deve não somente à influência dos cânticos de Is 60, mas também ao contexto de aliança entre a Igreja e os reis de Roma.
No século VII, eles teriam recebido “nomes” populares: Baltazar, Melchior e Gaspar. E, no século XV, lhes teriam sido atribuídas as “cores”: Melquior representaria as etnias brancas, Gaspar as amarelas e Baltazar as negras, a fim de simbolizar o conjunto da humanidade que acolhe e reconhece o Messias como Deus conosco e libertador de todas as formas de violência e de exclusão.
Fonte: Ildo Bohn Gass

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