sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Viemos para incomodar

Sei que corro o risco de parecer simplista demais, mas quero lhe fazer uma proposta. Olhe para a história da humanidade. Perceba como se deram as grandes mudanças. Normalmente giram em torno de três eixos possíveis:

- intervenção tecnológica,
- acordos entre os chefes das nações,
- lutas, conflitos e sangue.
Agora, olhe novamente para a história a partir de um ponto de vista social. Eu sugiro o olhar das classes menos favorecidas. Você crê, por exemplo, que todo o aparato tecnológico surgiu para facilitar a vida destas pessoas? Era este o intuito primeiro? Foi pensando nos pobres que surgiu a imprensa? Que aconteceu a revolução industrial? Que o ser humano foi para a Lua? Que inventaram o chip do cartão de crédito?


Você crê que todos os chefes das nações, eleitos ou impostos, fazem realmente as coisas pelos pobres porque acreditam na distribuição de renda, riqueza e saber? Você crê que estas classes mais desfavorecidas são somente recebedoras dos benefícios que o Estado tem a lhes oferecer? Você crê que os benefícios que hoje estas pessoas possuem vieram por uma atitude paternalista do governo, sem nenhum interesse além do bem estar social ou da justiça?
Você pode crer nisso. Fique à vontade. Mas eu acredito que nenhum benefício bem vindo é concedido aos mais pobres sem uma luta popular por trás. Olhe as histórias que existem no início de muitos bairros nas periferias das grandes cidades. São relatos de movimentos pela saúde, pela educação, pelo asfalto, pelo saneamento básico, pela segurança.
Nunca foi uma luta fácil. Ninguém abre mão dos privilégios sem tentar reagir. E isso não foi só no passado. Veja hoje como são retratados pela grande imprensa os movimentos sociais que querem chamar a atenção para o acúmulo de terras, para a falta de incentivo para a habitação popular, para a discriminação e abandono dos povos indígenas. São baderneiros, esquerdistas, vagabundos, arruaceiros.
E eu continuo a crer que só há mudança se houver pressão. Por que não é dado o mesmo tratamento ao sindicato que vai ao congresso pressionar por um aumento salarial e ao lobista que aborda o mesmo deputado para garantir mais fundos para esta ou aquela obra?
As camadas populares não tem o dinheiro dos lobistas, mas tem a pressão das pessoas que sentem na pele o descaso e a dor social. A mudança só acontece pela luta organizada. E em muitas delas a Igreja teve papel fundamental.
Existem arruaceiros, vagabundos, esquerdistas e baderneiros nas fileiras da Igreja Católica? Existem aqueles que querem modificar o “estado natural das coisas”? O que existe, meus caros amigos, é gente que estrutura sua ação motivada pelas palavras de Jesus e pelo exemplo das primeiras comunidades.
Jesus foi bem claro quando disse que veio para todos tivessem vida e vida em abundância. Como pode uma pessoa que se diz cristã, seguidora de Jesus, não se incomodar com tanta vida em falta por aí? Com gente sem ter o que comer, onde morar, como tratar da saúde, como ter melhores oportunidades de aprender. Sem isso, não há vida plena. As primeiras comunidades cristãs entenderam o recado. No meio delas, ninguém passava necessidade. Tudo era dividido e posto em comum.
Sensibilizar-se com o drama social e colocar em prática o assistencialismo é só um primeiro passo. É importante, mas não pode parar por aí. Em vários lugares somos nós, enquanto cristãos, que vamos contribuindo na organização popular pelas melhorias na qualidade de vida, seja fazendo abaixo-assinados, panelaços, ocupações, passeatas. Só grupos organizados e motivados conseguem mobilizar para as melhorias necessárias.
E por falar em pastoral, vida plena e desafios sociais, não se pode esquecer que milhares de jovens continuam vítimas da violência, seja matando, seja morrendo. Há uma campanha nefasta que tenta nos empurrar goela abaixo a tal da redução da maioridade penal como “solução” para este mal que aflige as famílias “de bem”. E você, pejoteiro, vai comprar esta história? E você, pejoteira, como pensa em organizar sua comunidade local quanto a isso? Seguindo os passos de Jesus de Nazaré, é preciso continuar incomodando os acomodados.

Por Rogério Oliveira

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