sábado, 15 de junho de 2013

Recordando a Páscoa de Gisley

Quando cheguei naquele lugar, depois do acontecido, fiquei com muita raiva. De um lado um barranco alto, de terra vermelha, lugar inhóspito; de outro um mato alto de capim. Foi aí, naquele mato alto, que deram os três tiros na cabeça de Gisley...  Os que estavam comigo e eu caímos num silêncio de presença.
Quando conheci Gisley, mal se tinha ordenado. Recebi a inscrição dele para fazer a Pós-Graduação em Juventude, na UNISINOS, em São Leopoldo. Conheci Gisley, portanto, querendo estudar juventude... Um menino magro, nascido em Morrinhos, nas terras de Goiás. Tão magro que o vento não levava... Eu conhecera esta cidade por causa de um colega dele que fizera o Curso de Assessores de Jovens, em Porto Alegre, e nos fizera rir muito. Voltei para lá só para falar com a mãe dele e visitar o túmulo de alguém que deu a vida pela juventude.
Vejo Gisley sentado na sala de aula, com 28 companheiros/as, curioso de juventude.  Estava na cara que ele não viera só para fazer pontos para algum concurso; ele viera, realmente, para ver se dava para compreender melhor o que é essa meninada, doida para viver e festar. Como ele... Seus colegas de curso vinham de várias partes, de várias práticas, de várias famílias. Pode-se dizer que se estudava rindo e discutindo. Gisley não se omitia.
Um dia ele me confidenciou que estava sendo convidado para ser o assessor do Setor Juventude da CNBB. Sei que lhe disse que era para pegar esse “rabo de foguete”, mas me lembro que algo de minha resposta não lhe agradara. Talvez ele pensasse que eu diria que ele era muito jovem, que não conhecia a Pastoral da Juventude, que seria melhor esperar, embora eu nem pensasse nada disso. E ele aceitou. Não sei de pormenores, mas o fato é que ele foi entrando fundo nesta missão, atravessando montanhas e vales.
Ele gostava de celebrar bonito, mesmo sem deixando de ser familiar. Ele soube ser assessor de bispos e de jovens... Vendo algumas coisas, no planeta da Pastoral da Juventude, me batem saudades de figuras como Gisley. Ele era concreto, mas também sonhava alto. Basta pensar na Campanha contra o Extermínio da Juventude. Depois de quatro anos bate firme, ainda, um sentimento forte ligando a morte de Gisley e o extermínio da juventude...
Não pude ir ao enterro dele, em Morrinhos, terra da família dele. Junto com Carmem, no entanto, tempos depois, com toda a solenidade dos corações, fiz, mais tarde, uma peregrinação ao túmulo dele. Imaginei-o viajando conosco... Olhei tudo como se olha a doação. Olhei a família como se olha a origem. Olhei a casa paroquial como se olha os desejos que ficam. Todos os/as jovens que passavam por nós pareciam ter escrito na testa um mistério.
Recordando estas pequenas coisas algo me suspirava que fui e poderia ter sido um pouco de pai de Gisley, mas enxotei a tentação e este orgulho. Gostaria, simplesmente, de ser um amigo dele e continuar a te-lo – mesmo com a idade avançada - como inspirador de sonhos que não se perdessem em mesquinharias.  Gostaria que ele sempre estivesse presente nos corpos agitados e bonitos dos/as jovens do mundo inteiro, cutucando-os para o idealismo, isto é, para os sonhos que vão além do imediato. Lembrando-me de  Gisley, lembro-me  de pessoas muito próximas da doação dele, mas gostaria de destacar, sobretudo, os milhões de outros que, como ele, devem estar cantando e celebrando a vida no paraíso que nos espera.
Padre Gisley, beato das esquinas e das festas,abençoe a juventude e todos que desejam ser cuidadores/as de jovens.
P. Hilário Dick S.J.
Junho de 2013

Fonte: Cajueiro

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