sábado, 23 de agosto de 2014

Converter-se é “buscar o rosto do Senhor” diante de nossos irmãos (Mt 16.13-20)


Converter-se é “buscar o rosto do Senhor” diante de nossos irmãos
Pedro Casaldáliga
(Mt 16.13-20) [João Artur Müller da Silva]
1. Primeiros pensamentos

A perícope de Mt 16.13-20 é sugerida como texto-base para a elaboração da prédica para o 11º Domingo após Pentecostes. Esse domingo será o dia 24 de agosto de 2014, um domingo como outro qualquer, sem uma distinção especial. Nesse aspecto reside a oportunidade para eleger dentre os temas que esta perícope oferece aquele que mais ouvidos e mentes abertas encontrará em sua comunidade.

Os textos que acompanham Mt 16.13-20 servem como fonte para a reflexão do/da pregador/pregadora. Como um aperitivo para estimular essa reflexão, compartilho o seguinte:

O Salmo 138 destaca a misericórdia e a verdade nas atitudes de Deus. O salmista confessa, a partir de sua experiência, que Deus é fiel e ouve suas súplicas. Ao final, o salmista sente-se parceiro de Deus em sua obra, mas reconhece que sem Deus não conseguirá levar “a bom termo” a obra de Deus. Já aqui podemos afirmar que a Igreja é essa obra de Deus. No entanto, ele necessita de nossa ação para realizar sua missão de vida no mundo. Também hoje, sem a força de Deus, a Igreja não realiza sua tarefa.

O apóstolo Paulo, em Rm 11.33-36, confirma e confessa que os pensamentos e caminhos de Deus são insondáveis. Por isso, recoloca as coisas em seu lugar. Ou seja: a glória e o louvor são para o nosso Senhor.

Na leitura e reflexão do Sl 138 e Rm 11.33-36, vamos ser confrontados com o conteúdo de nossa confissão de fé.


2. Aproximando-se de Mateus 16.13-20

Jesus leva seus discípulos para longe de Jerusalém, o grande centro de sua época. A região mencionada – Cesareia de Felipe – não deve ser identificada com a cidade portuária de Cesareia, que ficava na costa do Mar Mediterrâneo. A região de Cesareia de Felipe fica mais acima do Mar da Galileia, perto das fontes do rio Jordão. Podemos identificar essa região como a periferia de uma grande cidade, ou então, se preferirmos, identificá-la como uma região do interior, distante da capital.

Longe de tudo e de todos, Jesus reúne seus discípulos e quer saber quem ele é para o povo, num primeiro momento. Os discípulos começam a compartilhar com Jesus o que ouviram das pessoas que encontraram nas diferentes localidades em que andaram. Três nomes de personagens religiosos aparecem na lista do povo: João Batista, Elias e Jeremias. Uma resposta vaga aparece na expressão: “algum dos profetas”. A resposta dos discípulos revela a diversidade de opiniões, todas insuficientes para responder à pergunta: “Quem diz o povo ser o Filho do Homem?” Nas respostas, encontra-se o anseio pelo cumprimento das promessas feitas por Deus ao seu povo. Nos diferentes encontros com Jesus, o povo rememora esses personagens da história. A menção de João Batista, Elias e Jeremias não desabona o ministério de Jesus, mas também não abarca a amplitude da missão do Filho do Homem. Sem dúvida, há elementos comuns entre João Batista, Elias, Jeremias e Jesus. Mas, Jesus significa mais do que uma simples inserção na tradição profética. Jesus representa mais do que a continuidade da velha aliança de Deus com seu povo. Ele é a nova aliança. E pelos indicativos recolhidos pelos discípulos, o povo não tinha se apercebido disso.

O evangelista Mateus não se detém nas respostas que os discípulos recolheram entre o povo e, por isso, o centro dessa perícope está no segundo momento da conversa de Jesus com eles.

“Quem dizeis que eu sou?”

Nesse segundo momento, Jesus encerra as especulações, as teorias a seu respeito, e provoca uma confissão de fé em seus discípulos. Seu interesse está em ouvir deles uma confissão, pois foram eles escolhidos para ser continuadores de sua obra. Pedro se apresenta-se como o porta-voz dos discípulos. Também em outras ocasiões, Pedro aparece como um representante dos demais. Penso que a atitude de Pedro não tem nada a ver com uma supremacia sobre os demais. Não creio que possamos encontrar argumentos para assegurar que Pedro é o principal, o maioral entre os demais. Entendo o destaque de Pedro como um recurso didático para os ouvintes do Evangelho de Mateus. Ao mencionar Pedro, Mateus quer exemplificar uma atitude a ser seguida pelos demais discípulos de Jesus ao longo dos tempos. Portanto, assim como Mateus elege Pedro para ser aquele que representa e incorpora toda a comunidade dos discípulos, também podemos aceitar que outro discípulo elaborasse a mesma resposta para a pergunta de Jesus.

Destaco ainda que a pergunta de Jesus é um convite para os discípulos irem além da especulação popular. A confissão de fé pode considerar aspectos da opinião popular, mas precisa abrir-se à realidade própria de Jesus.

A resposta de Pedro contém a cristologia de Mateus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Os discípulos reconhecem no homem de Nazaré (Filho do Homem) o enviado de Deus. Nunca é demais lembrar que Messias significa, em hebraico, o ungido, o escolhido; em grego, significa Cristo. Jesus é aquele que Deus ungiu para realizar sua obra (a Igreja) entre as pessoas. Jesus é o Deus-conosco.

A confissão de Pedro conduz para a bênção. Jesus o declara bem-aventurado (feliz/abençoado), porque na confissão de Pedro ele destaca o dom de Deus. A fé é um presente de Deus. Não chegamos ao entendimento de Jesus somente por nossa pesquisa, por nossa própria reflexão. Ninguém chega a entender “quem é Jesus” a não ser mediante o compromisso com as propostas do Reino de Deus. A fé é o caminho para chegar a Cristo. E este caminho é dádiva de Deus.

Tensões e conflitos vão existir no caminho dos discípulos de Jesus. Mas, o próprio Cristo garante que sua Igreja não será derrubada pelo inferno. Ele promete força e resistência à sua Igreja enquanto peregrina por este mundo.

A perícope de Mt 16.13-20 é o famoso texto que serve como fundamento para a discussão a respeito da base sobre a qual a Igreja está fundamentada. Não acho interessante enveredar por essa discussão. Sabemos que a relação de Pedro com a Igreja é bastante controvertida. Creio que o importante a destacar nessa perícope é o conteúdo da confissão de fé e a missão da Igreja, a missão que o próprio Cristo delega aos que comungam em sua Igreja. Fica claro em Mt 16.13-20 que a Igreja é de Jesus. O pronome possessivo – minha – no versículo 18 assegura para nossa compreensão que Jesus Cristo está falando em constituir a sua Igreja. É Jesus quem convoca a Igreja, quem a edifica, que lhe dá proteção. Aqui também fica entendido Igreja como assembleia de pessoas que têm comunhão na mesma fé. Podemos arriscar a dizer que Jesus constrói sua Igreja a partir da confissão da comunidade. Em cima da confissão da comunidade de que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, ele, o Senhor, vai edificando a Igreja. Trata-se de um processo contínuo. Para nós, então, fica claro que pode haver uma Igreja sem Pedro, sem João, sem Maria, sem Vera. Mas não pode existir uma Igreja sem Jesus Cristo.

A missão da Igreja está simbolizada na entrega das chaves do Reino. As chaves do Reino, portanto, são símbolo desse ministério da Igreja. E nem de perto são símbolo de poder de uns sobre os outros na Igreja. Destaco aqui, mais uma vez, o caráter do serviço que é inerente ao ser Igreja neste mundo. A missão da Igreja neste mundo se percebe no serviço que ela presta às pessoas.

Por fim, essa perícope de Mateus apresenta o segredo messiânico. No contexto da época de Jesus, o pedido do Mestre se revestia de um cuidado. No entanto, depois de Pentecostes, deixa de ter sua razão esse cuidado com a revelação de que Jesus de Nazaré é o Cristo. O mesmo Pedro, em Atos, conclui sua pregação afirmando em alto e bom tom: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”. A partir de Pentecostes, o segredo messiânico já pode ser revelado.

3. Aproximando-se da prédica

Enquanto estou preparando este auxílio homilético, apareceu na imprensa secular e eclesiástica a notícia do provável rosto de Jesus Cristo produzido por um computador, alimentado por estudiosos da Universidade de Manchester, Inglaterra. Li no jornal do CLAI (Conselho Latino-americano de Igrejas), Nuevo Siglo, de abril de 2001, a matéria com a manchete: “É correta a imagem que temos de Jesus Cristo?”. Ao lado da reportagem, há então a foto gerada pelo computador. No editorial desse mesmo jornal, encontrei o seguinte comentário: “Não obstante, algo de verdade pode haver nesta nova e seguramente antepenúltima tentativa de nos aproximar do rosto de nosso Senhor. Porque, como antecipou o profeta Isaías, não houve nele nem beleza nem esplendor e seu aspecto não tinha nada de atraente. Foi um desprezado e rejeitado por seus semelhantes, um homem cheio de dor e acostumado ao sofrimento”. E o editorial conclui: “Somente não se esqueça de que sua beleza e seu resplendor não estavam em seu rosto, mas sim em sua vida, para nos redimir do domínio do pecado e nos oferecer a promessa de uma vida diferente”.

A imagem que fazemos de Jesus Cristo está intimamente ligada à nossa confissão de fé. O ato da confissão não é apenas uma afirmação teórica, mas ela se concretiza no discipulado. Discipulado, por sua vez, tem a ver com vida, atitudes, valores, ações concretas emanadas do Evangelho. Esse é um tema interessante a ser compartilhado na prédica.

Outro tema que aflora nessa perícope é a edificação da Igreja de Cristo. Igreja entendida como a reunião das pessoas que respondem aos apelos que Deus lhes dirige por meio do Evangelho. Onde estão seus fundamentos? Sobre que base se ergue a Igreja de Cristo? Nessa perícope de Mateus, encontramos uma pista interessante: a partir do testemunho nasce a comunidade de Cristo. Jesus faz seus discípulos participarem da vida de sua Igreja e, por isso, repassa-lhes as chaves do Reino dos céus.

Como a nossa comunidade usa esse poder de perdoar ou não perdoar os pecados? Que ações desencadeia a partir dessa incumbência recebida? Como ela se entende e organiza a partir dessa tarefa recebida? Como celebra o perdão dos pecados? Faz sentido falar hoje em disciplina fraternal?

As chaves do Reino dos céus não têm semelhança com as chaves da cidade que são entregues ao Rei Momo na abertura do carnaval. Primeiro, porque aos discípulos não lhes é facultado reinar sobre os outros. Jesus Cristo é o rei, ele reina na Igreja e no mundo. Segundo, as chaves do Reino dos céus não abrem as portas para a folia descomprometida, mas abrem as portas para a conversão, para a reconciliação do povo com Deus e com as outras pessoas. Terceiro, a Igreja é expressão da comunhão e do compromisso de homens e mulheres que encontram em Jesus Cristo a verdade, o caminho e a vida.


Bibliografia

GORGULHO, Frei Gilberto, ANDERSON, Ana Maria. A justiça de Deus : Mateus : Círculos Bíblicos. São Paulo : Paulinas, 1981.
HENDRIKSEN, Guillermo. Comentario del Nuevo Testamento : exposición del Evangelio según Mateo. Grand Rapids : Subcomisión Literatura Cristiana, 1986.

Proclamar Libertação 27
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia

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