domingo, 22 de junho de 2014

Martiria - A espiritualidade do testemunho - Mt 10,26-33


O evangelho lido neste 12º domingo comum está dentro do discurso de Jesus sobre a missão da comunidade cristã (Mt 10,1-42). Portanto, são palavras dirigidas aos discípulos e discípulas que assumiram o apostolado, que acolheram o chamado e o envio em missão. Infelizmente são poucos os discípulos e discípulas que assumem o apostolado. Até hoje. Após a escolha e o envio (Mt 10,1-4), Jesus dá um rumo à missão da comunidade (Mt 10,5-15). A missão não é tanto ir para longe, mas preocupar-se com as pessoas que estão perto e que precisam de apoio, carinho, solidariedade, ajuda. A missão da comunidade é dar prosseguimento à prática de Jesus em favor dos marginalizados pela religião oficial da época dele: os doentes, os leprosos, os possessos. As pessoas enviadas em missão devem anunciar o Reino de uma maneira simples e despojada, sem muitos artifícios de retórica ou de intelectualidade, muito menos em busca de resultados imediatos. Deus tem sua própria lógica.
Mas a mensagem não será transmitida sem conflitos (Mt 10,16). Os apóstolos são como ovelhas em meio a lobos. A imagem de lobo nas passagens bíblicas aponta para as autoridades dentro do povo de Deus. Jesus deixa claro que os apóstolos terão dificuldades com as autoridades religiosas dentro do judaísmo. Por isso, as comunidades devem ser antes de tudo, simples como pombas e prudentes como serpentes. Se o próprio Jesus enfrentou dificuldades com as autoridades religiosas, o mesmo vai acontecer com seus seguidores e seguidoras.
Jesus fala então das dificuldades na missão (Mt 10,17-22). Estas dificuldades refletem a situação das comunidades cristãs na época em que o evangelho de Mateus foi escrito (por volta do ano 85 d.C.). No momento as pessoas que fizeram opção pela proposta de Jesus estão sendo açoitadas, caluniadas, perseguidas e enfrentando julgamentos civis (tribunais) e religiosos (sinagogas). As palavras de Jesus querem confortar estas pessoas dizendo que a perseguição apenas indicava a fidelidade delas aos ensinamentos do Mestre. Dando testemunho de Jesus em situação tão adversa, as comunidades estão experimentando a ação do Espírito Santo. Jesus garante que este mesmo Espírito Santo, que lhes foi dado em Pentecostes, é quem falará por elas diante dos reis e dos governadores. As comunidades enfrentarão e vencerão as hostilidades e as difamações com a força do Espírito.
Diante de tantas dificuldades, Jesus dá duas recomendações (Mt 10,23-25): em primeiro lugar, não perder tempo e dar murro em ponta de faca. Se você for perseguido num lugar, fuja para outro. Nunca irão nos faltar lugares a serem evangelizados. Segundo: não ter medo! Esta é a chave para a leitura do evangelho para este domingo!
No texto de nossa celebração deste final de semana (Mt 10,26-33), aparece por três vezes a recomendação não tenham medo! (vv. 26.28.31). Sinal de que o grande problema nas comunidades daquela época era justamente o medo. Medo de ser preso, de ser torturado, de ser expulso da comunidade religiosa, de entrar em conflito com os familiares de sua própria casa. Muitos conflitos! Diante de tantas dificuldades as pessoas fugiam de seus compromissos batismais, negando sua opção por Jesus e pelo Reino, fugindo da missão.
Ora, a vinda do Espírito Santo sobre a comunidade levou-os a superar o medo e a se expor nas ruas, transmitindo a novidade do Reino de Deus realizado no mistério de Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado. Receber o Espírito e sentir medo é uma total contradição na vida de uma pessoa que passou pelo batismo. A presença do Espírito nos leva a trabalhar nossos medos e a buscar a coragem necessária para testemunhar abertamente a novidade do Evangelho de Jesus. Assim, um batizado não pode ter medo de se expor, de proclamar abertamente sua fé, de assumir publicamente uma posição. São atitudes assim que permitem que os outros conheçam a proposta de Jesus e os valores do Reino de Deus. Este testemunho corajoso é que identifica a profunda união entre Mestre e discípulo ou discípula. Este ato de testemunhar corajosamente se chama martiria. O que Jesus nos pede neste domingo é coerência com o Espírito recebido em Pentecostes. Somos todos e todas chamados a testemunhar nossa fé, mesmo diante dos ambientes mais desencorajadores. Nosso batismo nos pede a martiria, a força e a coragem de testemunhar a novidade que vem de Deus.
Podemos nos lembrar, em nossas celebrações deste domingo, de todas as comunidades cristãs que ainda hoje sofrem por testemunharem corajosamente o Evangelho de Jesus. Em nosso país, professar a fé não nos compromete em nada. Temos total liberdade de religião e de culto. Por isso, não podemos esquecer que, em muitos lugares, portar uma Bíblia ainda é causa de prisão ou que cantar abertamente em celebrações é motivo de perseguição. Podemos lembrar também aquelas comunidades que enfrentam fundamentalismos de todo tipo, vendo suas igrejas e templos serem queimados ou destruídos. Que estas comunidades possam se encorajar com as palavras de Jesus neste domingo:não tenham medo! Vocês valem mais que muitos pardais... (Mt 10,31).

Fonte: Francisco Orofino

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